Breves apontamentos sobre o racismo (II)

O assim chamado “racismo ideológico” emerge em meio a lutas de minorias nacionais europeias que tentavam se desembaraçar de dominadores externos e pertencentes a outras culturas. Contemporaneamente, estava a ocorrer uma segunda onda colonialista que levaria os europeus a todos os rincões do mundo, inclusive vindo a dominar populações enormes de longa tradição histórica, como os casos da Índia e da China. Nessa ocasião, irão surgir intelectuais que vãos se dedicar à tarefa de evidenciar as diferenças humanas.

Um dos mais célebres, nem por isso menos ridículo –julgava-se descendente do deus dos vikings, Odin- foi o Conde Arthur de Gobineau que nem por isso deixou de exercer uma enorme influência. Em seu livro Essay sur L´Inegallité des Races Humaines – Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas- jacta-se de ter encontrado a “chave da História”. Segundo ele, todos os autores que o antecederam explicavam as causas da ascensão e da decadência das civilizações. Mas, nenhum deles demonstrava as causas de sua decadência. Eis a chave: a mistura de raças. Ao se cruzarem com povos de outras características, sabidamente inferiores segundo ele, se degradavam, decaíam, desapareciam. A miscigenação seria o fator explicativo da decadência.

Esse também decadente aristocrata francês foi hóspede do governo imperial do Brasil. É possível, então, imaginá-lo cercado de senhores de terra apreciando um licor de jenipapo nas tarde modorrentas de Petrópolis. Ao ser arguido das possibilidades futuras do Brasil e dos brasileiros, ele deve ter respondido com enfado, non, non… O grau de miscigenação local já era, então, acentuado. Com meneios efeminados e um tom blasé em sua fala, lançou a sua sentença definitiva: “Vocês irão transitar da barbárie à decadência sem sequer atingirem a civilização”. O ambiente nos magníficos salões da cidade imperial –futuro cenário de várias novelas da Rede Globo- deve ter-se turvado. Nascia ali, o germe do racismo brasileiro, falsamente denominado num eufemismo cruel e mórbido de “democracia racial”.

A maioria da população era constituída de negros. A persistir a miscigenação a tendência, segundo Gobineau, seria a de vir a ocorrer um progressivo enegrecimento da população. Daí, os nossos luminares irão buscar uma saída. Inverter a equação. Diminuir a população negra. Mandar os negros para a morte na Guerra do Paraguai e buscar um incremento numérico da população branca, por via de intensa imigração de europeus. A crise social europeia favorecia e favoreceu. Grande fluxo de pessoas brancas virá aportar ao Brasil.

Assim, quando ocorre a Abolição da Escravatura, em 1888, os negros brasileiros não foram libertados e sim abandonados à própria sorte. Tangidos das áreas rurais, ali já substituídos por europeus de diversa origem, irão ocupar áreas degradadas ou

vulneráveis das cidades. O favelamento começou. Aliás, o nome “favela” era de um morro nas vizinhanças do Arraial de Canudos. No Rio de Janeiro, nos sopés dos morros aonde as tropas do Exército se organizavam para o massacre dos camponeses no sertão da Bahia, o nome foi adotado, em 1897. E quais eram os seus habitantes? Os mesmos que ainda os ocupam. Imensa maioria de negros, destituídos de direitos os mais elementares. Sujeitos a ataques de tropas policiais e até do Exército até hoje. E são mortos. E suas mortes não provocam sequer comiseração. Porque se trata de pobres, negros de tão pobres… “O Haiti é aqui!”

Os Estados Unidos são acusados do maior número de vítimas por ataques e investidas policiais. Os números no Brasil são vinte vezes maiores.

Para cada George Floyd americano, já que -“vidas negras importam”- morrem vinte no Brasil. Importam?

Que descansem em paz, ao menos…