Bolsonaro e o Barão de Itararé

Os tempos estão difíceis. Ouço isso quase todos os dias, aliás, venho ouvindo isso há muito tempo. Depois de tanta baixaria no campo político brasileiro, algo me incomoda muito: a surpresa de grande parte das pessoas com as atitudes e ações do Presidente Bolsonaro. Quanta falta de sensibilidade. Bolsonaro é, sem dúvida, o mais coerente de todos os políticos brasileiros, por uma única e definitiva razão: ele interpreta ele mesmo. Algum dia alguém poderia esperar do Presidente alguma coisa além do que ele diz e faz? As atitudes de Bolsonaro me carregam a um dos maiores expoentes do jornalismo brasileiro, Apparício Fernando de Brinkerrholf Torelly, mais conhecido por Barão de Itararé.

Como hoje estou saudosista, vou refletir em frases lapidais do grande jornalista. A começar pela mais famosa delas: “De onde nada se espera, daí é que não sai nada”. Nenhum pensamento filosófico é tão preciso, no caso de Bolsonaro, quanto esse. Já tive o prazer de discorrer sobre ele em outras crônicas, mantenho o que digo. Toda família tem um Bolsonaro de plantão. Ele é o tiozão do churrasco, que fala alto, não tem compostura e interfere na intimidade de cada um. Suas ideias são risíveis, faltam-lhes conteúdo, são carregadas de preconceitos, violência e falta de inteligência. É o tio que adora os filhos, sem ter a mínima capacidade de pesar defeitos. A palavra discernimento não faz parte do seu dicionário, aliás, ele nem sequer sabe o significado. O problema é que esse tio, muitas vezes, se intromete na conduta da casa alheia. Começa então a terceira guerra mundial.

Imaginem essa figura na Presidência da República. É o mesmo que um macaco numa loja de louças. Volto ao Barão de Itararé na frase: “O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta”. Passa pela cabeça de alguém produzir desastres políticos em plena crise de saúde, vivida por todos os países do mundo? Dentro da lógica, a resposta seria não, mas lógica é o que passa longe de Bolsonaro.

Se o Ministro da Saúde espelha-se na ciência para conduzir as atitudes de enfrentamento da pandemia, melhor é tirar o Ministro. Por que acreditar na ciência, principalmente quando se acredita que a terra é plana? Brigar com o Ministro da Justiça, considerado paladino da luta contra a corrupção no Brasil, quando vê ameaçada a própria matilha, navalhando o conceito de ética? Essa atitude me faz lembrar dos versos da música “o meu guri”, do Chico Buarque, aliás comunista de carteirinha do gueto francês do Leblon: “ chega no morro com carregamento/ pulseira, cimento, relógio, pneu gravador/ rezo até ele chegar cá no alto/ Essa onda de assalto tá um horror/ eu consolo ele, ele me consola/ Boto ele no colo pra ele me ninar”.

Eu pergunto, existe pai melhor? Eu me lembro de uma frase estampada num muro, no final da Avenida 9 de julho, bem no auge da ditadura: “comam merda, bilhões de moscas não podem estar enganadas”. 57 milhões de brasileiros não estão enganados. Volto ao Barão de Itararé: “Pra esse mundo ficar bom, é preciso fazer outro”.