Bob Dylan e o seu merecido prêmio Nobel de Literatura

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O grande vencedor de 2016

Geralmente, Prêmios Nobel de Literatura são muito polêmicos. O motivo que me deu a epifania para escrever este texto foi que, neste ano, a laureada foi Louise Glück, poeta estadunidense que teve como motivação da Academia Sueca, que é quem escolhe os vencedores, por sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”, assim afirmaram os selecionadores. Tudo bem, a Academia escolhe quem quer, mas o prêmio mais uma vez gera certo desconforto a este que vos escreve, pelo simples motivo de: Quem é Louise Glück?  Por este motivo, recordei de outra premiação polêmica.

Você não a conhece? Não tem problema. Bilhões de leitores também não.

Podem dizer alguns leitores que a pergunta acima provém do meu desconhecimento de causa e que a laureada é conhecida no mundo inteiro. Pode ser. Mas ela não tem livros publicados no Brasil, tampouco tradução em língua portuguesa. O cerne da questão é que de 2015 para cá, para analisar um período de tempo, apenas um nome se destacou dentre as polêmicas e justamente o nome mais polêmico é o único que é conhecido de qualquer público: Bob Dylan.

Ampliando um pouco, de 2010 para cá, eu conheço de ler apenas Mario Vargas Llosa, Patrick Modiano e ouço Bob Dylan. A maioria dos vencedores é de representatividade bastante limitada a certos círculos intelectuais. Diferentemente de outras áreas do Prêmio, onde a questão humana intelectual inquestionável sempre está à frente da escolha, a Literatura do Nobel anda questionável de escolhas. Vide, por exemplo, nossa língua portuguesa. Falada por mais de 275 milhões de pessoas, ela é uma das mais faladas do mundo, mas temos apenas um vencedor do Nobel, José Saramago, no já longínquo ano de 1998. Por esse motivo, questiona-se, às vezes, o critério de seleção do prêmio. A Polônia tem cinco vencedores, mas sua amplitude é tão maior assim que os autores de língua portuguesa? Questiono. São autores bem restritos e que não superam em nada Mia Couto, escritor Moçambicano, por exemplo.

Escritores de língua portuguesa como Mia Couto não costumam ter vez no Nobel. Em português, somente José Saramago.

Mas o foco deste texto não é sobre os critérios, mas dialogar sobre um vencedor que é bem injustiçado. Bob Dylan, hoje quase octogenário, levou o prêmio em 2016 e muito se falou se um cantor e compositor merecia o prêmio. De acordo com o Nobel, ele criou a nova expressão poética na canção americana. A crítica que se deu em torno de Dylan vencer o prêmio se dá por ele ser mais cantor do que escritor. Seria ele pop demais para fulgurar entre a desconhecida poeta sua compatriota vencedora deste ano ou outra escritora da Bielorrússia, que venceu o prêmio um ano antes? Philip Roth, grande escritor, morreu sem ser agraciado, para citar outro compatriota de Dylan. Contudo, antes de Dylan, Toni Morrison e sua literatura de libertação e denúncia contra o racismo vencera em 1993. O que se pergunta então é: Dylan é merecedor do prêmio tanto quanto Louise Glück? Em minha análise sim. Até mais.

Bob Dylan tem mais de 50 anos de carreira e sua música alterou profundamente o ritmo das produções a partir dos anos 1960. Não fosse por ele, os Beatles não teriam evoluído tanto e teriam ficado segurando as mãos das garotas ao invés de se tornarem o que se tornaram. Considerando que o Nobel tem conotações bem políticas, isso explica a Literatura ser a única arte laureada pela Academia Sueca. Mais do que a música, cinema, teatro ou artes plásticas, a arte literária consegue um alcance planetário. Pode muito bem ser traduzida, feita para milhões, conservada e não precisa mais do que a alfabetização básica para ser absorvida pelo humano.

Quem não concorda com Bob Dylan sendo laureado deveria repensar essa ideia. Ele é um cantor, afirmam. Contudo, o poeta Ezra Pound afirmou certa vez que a literatura é linguagem carregada de significado. E isso as letras de Dylan tem demais. Suas escolhas linguísticas são louváveis e há muito já são objeto de estudos pelas qualidades literárias. A saber, ele já tinha sido indicado ao Nobel 20 anos antes. E, ademais, ser um músico de sucesso não deveria ser um problema. Falta de qualidade sim.

Há que ser pensado que música e poesia andam juntas, muito intimamente na ópera, que é uma arte inquestionável. Nesse aspecto, quiçá Chico Buarque, nosso grande letrista, compositor e cantor talvez não seja futuramente um escolhido. Ele tem tanta produção poética quando em obras literárias para mostrar. Bob Dylan abriu as portas para muitos outros que agora poderão ser alçados à condição de poetas (reconhecidos como tal) e não somente meros cantores ou compositores. Todo letrista ou compositor é um poeta. E se sua arte atinge e inspira, logo é merecedora de certa láurea.

Partindo para a qualidade literária propriamente dita, basta ler alguns versos de Dylan e perceber que ali há um poeta que pode ser comparado a Walt Whitman, Fernando Pessoa, Pablo Neruda ou Carlos Drummond de Andrade. São palavras escolhidas para fazer um sentido amplo, humano, universal. Basta observar certas letras como as de Hurricane, canção que o artista compôs para ajudar na luta contra o encarceramento injusto do pugilista Rubin Carter que durou 20 anos. Ou observar Like a rolling stone e tentar responder à indagação feita How does it feel (qual é a sensação?). Pensar em um mundo com menos guerra e mais paz, com Blowing in the wind. Ou seja, com muitos outros exemplos, o leitor que se aventurar pelas letras das canções de Bob Dylan vai perceber um poeta engajado, em luta social constante, ligado a sua realidade e sem fugir dela. Um artista.

Bob Dylan visita Rubin Carter na prisão. Luta contra o encarceramento injusto motivado pelo racismo.

Para finalizar, deixo como exercício de pensamento um verso da canção The times They are A-changin’, composta em 1963 e lançada no ano seguinte. Escolhi um vídeo de um filme bastante emblemático e que se pode perceber a força política e humana da letra.  Isso prova que um artista nunca vai roubar o lugar de alguém, quando se trata de ser premiado. Ele apenas recebe o que lhe é de direito. E por que escolhi esta música com um filme em anexo? Por que Dylan já teve uma canção como a melhor canção do Oscar de 2001, a bela música Things have changed. E, para quem duvida da força criativa do artista, Bob Dylan já ganhou Oscar, Globo de Ouro, Grammy e Pulitzer. Vale a pena repensar a ideia do merecimento do Nobel e desejar por mais artistas como ele vencendo esse prêmio.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won’t come again
And don’t speak too soon
For the wheel’s still in spin
And there’s no tellin’ who that it’s namin’
For the loser now will be later to win
For the times they are a-changin’

(Venham escritores e críticos
Que profetizam com suas canetas
E mantenham os olhos abertos
Não haverá outra chance
E não falem cedo demais
Pois a roda ainda está girando
E não há como dizer quem ela está chamando
Pois agora será tarde para o perdedor vencer
Pois os tempos, eles estão mudando

The Times They Are A-Changin’, 1963)