As línguas dos meus amigos

Chico Ferreira é um raro e querido amigo. Alguém que sabe cultuar a amizade e sempre encontra tempo para nos mostrar que a vida vale a pena. Mesmo quando os indícios são contrários e o tempo não joga a favor. Muito antes da pandemia, lá ia o Chico em todas as manhãs de sábado empinar pipas com seus meninos. Estacionava o carro, de lá retirava alguns equipamentos estranhos e, faça sol ou ameace chuva, os três se punham a correr atrás dos bons ventos. Da janela do meu quarto, gostava de observar a cena. Pai e filhos distraídos do mundo, na mais séria concentração de trabalho: elevar às alturas um pedaço qualquer de papel. Sempre me perguntei: “E porque não, eu?”

Nesta semana, com pandemias e quarentenas, o parque permanece fechado, as pipas estacionadas nos bagageiros e o carro certamente procurando novos destinos. Mas estamos falando de Chico, alguém que sempre é capaz de nos surpreender. Acordo na manhã de sábado e o encontro dentro de minha casa, eu ainda sob os lençóis buscando a proteção do pouco frio que faz lá fora. Chico veio em forma de um texto impecável, contando parte de uma história que o Brasil deveria conhecer melhor. E fala da língua de experiente educador, de alguém que chegou pobre por aqui, enfrentou as desigualdades e nunca se deu por vencido.

É um exemplo de amigo, relatado por um amigo que nos dá exemplos. Resolvi, de forma maliciosa e atrevida, meter o bico onde não fui chamado.

Havia um menino pobre que andava descalço pelas ruas e avenidas imperfeitas da capital libanesa. Tinha seis anos, era franzino e furtava carona externa dos bondes, viajando ‘pendurado’ desde a periferia onde morava até o centro da capital. Equilibrava-se com apenas uma das mãos, na outra carregava uma bandeja de doces caseiros, fabricados pela própria mãe. Com sorte, vendia o pouco estoque em pouco mais de três horas de andanças. Tinha alguns clientes fixo, outros que conquistava no dia-a-dia. Com alguns míseros trocados já era hora de regressar ao lar. O dinheiro, apesar de pouco, era indispensável e servia para robustecer a frágil economia doméstica, quando somado aos ganhos do pai.

Havia no meio do caminho, porém, um bar que despertava a atenção daquele menino. Nem tanto pelos móveis rústicos, de madeira pesada e escura, ou pelas luminárias tradicionais, ou por conta de um largo e elegante balcão. O que mexia com os sentimentos do franzino vendedor de doces era o inesquecível cheiro de kebabe, uma comida tipicamente árabe e insuportavelmente apetitosa. Todas as manhãs, o menino passava por lá e respirava fundo, como se estivesse degustando a mais sublime das iguarias. Fiel aos princípios da família, recusava-se a cair em tentação. Jamais gastou um vintém do pouco que aferia com a venda de doces para saciar o desejo do apetite.

Ainda pobre, esse menino franzino, vendedor de doces nas principais ruas centrais da capital libanesa, tomou outros rumos. Com a família, desembarcou no Brasil. Chico Ferreira resume bem essa história. Passa-se o tempo. O menino pobre e descalço das ruas de Beirute vence o jogo da vida. Torna-se próspero educador e empresário de sucesso. Faz fortuna e espalha seu trabalho rompendo fronteiras e desafiando limites.

Bem-sucedido, chega o momento de rebuscar o passado. Retorna ao Líbano, reencontra amigos e parentes. Quer informações das ruas e avenidas, do velho comércio central, quem sabe talvez, com sorte e obstinação, ainda encontre alguns velhos fregueses. Aos primos mais próximos, pergunta sobre o bar que lhe provocava tanto encantamento e apetite. Resistente ao tempo, às guerras, lá estava o velho prédio, no mesmo local, com as mesmas características. O antigo e entalhado balcão, as mesmas luminárias, os móveis rústicos, madeira escura e, como a provoca-lo, exalando diariamente o mesmo perfume inconfundível de kebabe. Afinal, era o retorno do filho pródigo ao ambiente que ele tanto sonhara. Foram precisos anos de trabalho, de luta e dedicação, longe do verdadeiro lar para, finalmente, poder desfrutar do fruto proibido.

O bem-sucedido empresário não teve dúvidas. Retornou ao local de tantas boas lembranças. Ao lado de um primo, sentou-se na mesa mais disputada do lugar, chamou pelo garçom e fez seu pedido: meia dúzia de kebabes. O pedido, claro, gerou surpresa e curiosidade. A começar pelo primo: “Seis quebabes? Você pediu tudo isso?” A pronta resposta do empresário Chaim Zaher foi um poema sem rima. “Eu não vim aqui comer kebabe, eu vim saborear saudades”.