Amanhã vai ser outro dia…

“Amanhã, vai ser outro dia!
Amanhã, vai ser outro dia!
Hoje Você é quem manda
falou, ta falado
não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
falando de lado
e olhando pro chão.”


Desde a primeira vez que ouvi esse “samba no escuro”, eu o compreendi, de imediato. Felizmente, os censores da Ditadura não entenderam. Eles devem ter confundido “você”, a segunda pessoa do discurso, mas por ser pronome de tratamento é empregado na terceira, aquele a quem se fala ou se escreve. Imaginaram, por certo, fosse uma descrição de briga familiar ou de um casal. Não era. Denunciava-se a opressão em que vivíamos. Pior. “Você” será usado como vocativo em vários momentos da letra, interpelando um interlocutor real ou imaginário. A sua bênção, Chico Buarque!


Corria o ano de 1.971. Eu estudava para me tornar professor, na UFMG, em Belo Horizonte. Relembro isso no romance que escrevi sobre a época, “Nossas Roupas Dependuradas” que publiquei em 1.996. Nele, misturo fatos e pessoas reais e imaginários para que não parecesse uma autobiografia precoce como a de Evtuchenko. Dois meses antes de ser preso, no mês de Julho, aconteceu algo que narro e tem a ver com a música e o seu autor. Reproduzo, aqui, em itálico.


O mesmo locutor que anunciava censura à música Apesar de Você, confirmava o show de Chico Buarque naquela sexta-feira. No auditório da Secretaria da Saúde, distante umas quatro quadras, apenas, do prédio onde moravam. Maurício não se conteve. Com o mesmo rompante dos momentos de discussões infindáveis, falu, incisivamente, enquanto desligava o rádio.
“Vamos todos.”
“Ei, espere aí. Deve existir alguma repressão. Calma.”
“Foda-se a repressão. Vamos. Não tolero mais ficar olhando a ponta dos sapatos.”
Uma súbita e incontida euforia tomou conta dos amigos. Mais ainda, quando irrompeu pela saleta o Guilherme, que devia estar ouvindo a conversa do corredor.
“As cervejas são por minha conta.”

E logo adiante, o relato prossegue. Os comentários se repetiam, mesmo quando já se acomodavam nas primeiras cadeiras do auditório, onde chegaram uma hora antes da hora prevista para o show. O barulho era ensurdecedor. Centenas de estudantes urrando ao mesmo tempo. Maurício levantava-se a cada instante. Preocupava-o uns tipos estranhos, de cabelos aparados, que se perfilavam dos dois lados, a distâncias regulares. ‘São onipresentes. Filhos da puta.’ Algo completamente imprevisto sucedeu. O compositor adentrou ao palco, ajeitando-se num banquinho de madeira, acompanhado do MPB-4, cantarolando a música proibida, sem dizer-lhe a letra. Maurício, como um possesso, saltou a primeira fila de cadeiras e fez todo mundo cantá-la.


“Apesar de Você
amanhã há de ser outro dia…”
No coração de todos, aquelas palavras vibravam como uma certeza. Nem os acenos do compositor impediram que o povo a cantasse. Por inteiro. Como disse antes, no mês de Julho foi a minha vez. Uma letra minha foi vetada no Festival da Canção de Passos e acabei sendo preso ao voltar a Belo Horizonte. Fiquei detido no DOI-CODI no prédio do DOPS (siglas do aparato repressivo de então) por dez dias. A razão nunca me foi explicada. A música era inconveniente. Só.


Hoje, pela manhã, tomei a Vacina Coronavac portando uma camiseta com um verso de “Apesar de Você”. Nunca imaginei que o ato de vacinar-se se tornaria uma forma de protesto. Os negacionistas que estão no poder nos levaram a isso. E eu o fiz com a mesma emoção com que cantávamos a música já lá se vão cinqüenta anos! O que me moveu e nos movia: a esperança.
A vacina combate o vírus Sars-Cov 2. A esperança combate o vírus mais perigoso que é o do autoritarismo e da imbecilidade!
Encerro com um brinde que me foi oferecido pelo amigo Zé Romero. Um poema de Mário Quintana que ofereço, também, à devotada equipe da UBS Dr. Luís Gaetani, no Conjunto Cristo Redentor.


E peço licença ao grande cronista Ruy Castro e reproduzo o final de sua coluna de hoje na FSP, que diz assim:
“Ontem, na fila da vacina, entre todos aqueles coroas de máscara, eu identificava em seus olhos uma só sensação: a de esperança. Com certeza, a mesma que viam nos meus.”


Quando se perde a esperança, já nos disse Dante, está-se às portas do Inferno!
Minhas saudações. (escrita no dia 26.Março.2021)