Adeus, condomínio!

EU NÃO SOU DA SUA RUA… “Eu não sou o seu vizinho, eu moro muito longe, sozinho”.  A música dos Titãs Branco Melo/Arnaldo Antunes,  gravada por Marisa Monte no disco “Mais”, de 1991, retrata a estranheza de quem não encontra bem o seu lugar neste mundo.  Mas lembrei da canção por um motivo mais concreto. Aliás, concreto, concertina e câmeras de segurança das muralhas dos nossos condomínios fechados. Lembrei do futuro.

RUÍNA IMOBILIÁRIA – Estamos no ano de 2119 e um grupo de estudantes de História faz um trabalho de conclusão de curso sobre um fenômeno habitacional do século 21. Eles estudam o que sobrou de um condomínio horizontal fechado. Os jovens universitários caminham entre as ruínas de casas todas muito parecidas, quadradas, com os grafiatos marrons descascados e vidros estilhaçados expondo as infalíveis escadas. Sim, todas as casas desta época eram de dois andares. Afinal, os seus moradores viviam intensamente o momento gourmet, ninguém imaginava que um dia a velhice poderia dificultar a subida de degraus para chegar até o quarto de dormir. 

MURO CONTRA MURO – Por volta de 2060 a crise dos condomínios ficou muito grave. Toda a população queria morar num espaço fechado, com lazer completo, vigilância 24 horas. Nem que para isso fosse preciso se sujeitar a regras extremamente rígidas, como jamais deixar o engradado de cerveja exposto, à vista de todos, na garagem aberta para a rua. Multa na certa. E os muros dos condomínios passaram a ficar encostados, uns nos outros. 

DIREITO DE IR E VIR – A coisa ficou muito séria porque para ir de um lugar ao outro da cidade, o morador de um condomínio era obrigado a se identificar na portaria do condomínio que estava grudado ao dele. E assim, uma terceira portaria se estabeleceu em todos os condomínios. Além da cancela dos moradores e visitantes agora tinha também a dos vizinhos. Para ir de um extremo ao outro da cidade, só para visitar a sogra era preciso atravessar uns 52 condomínios.  O mercado de drones para transporte pessoal chegou a florescer, mas depois de alguns assaltos, o espaço aéreo também passou a ser monitorado e proibido.

A DESCOBERTA DA PEDRA – Estamos de volta ao trabalho de escavação, em 2119. Um dos estudantes de História bate em algo muito duro embaixo da terra. É uma pedra conhecida como paralelepípedo que os antigos usavam para calçar ruas e avenidas. Os universitários do futuro estão prestes a descobrir que há cem anos, quando a crise dos condomínios dava os primeiros sinais, os moradores tiveram a chance de reinventar o conceito de cidade e cidadania. Os estudantes deixam o sítio arqueológico e começam a elaborar o TCC descrevendo esta avenida que aos domingos ficava fechada para os veículos com motor à explosão. Por algumas horas, o espaço era apenas do passeio, da conversa e do encontro de velhos amigos, tudo sem identificação na cancela.