A raiz do problema: os intelectuais e a educação

Não há senso comum maior, antigo e correto que creditar à educação tupiniquim o protagonismo de um futuro melhor e a responsabilidade pelos problemas contemporâneos. Contudo, o brasileiro pouco entende sobre o assunto, que costuma ser abordado através de critérios subjetivos, quantitativos e, principalmente, ideológicos, além de exaustivamente permeado por demagogia e oportunismo.

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Foto: Unsplash

Fala-se muito sobre vagas, estrutura e acesso, mas pouco sobre projetos e objetivos -inadiáveis, mas espinhosos demais para o debate público. Prioriza-se o superficial. Aparta-se do debate público a mais crucial informação: a educação é produto objetivo da sociedade na qual está inserida. Em outras palavras, entende-se que o modelo educacional deficiente é fonte das principais mazelas do país, mas seu funcionamento e sua estruturação dependem, paradoxalmente, de legitimação social. Assim, cabe indagar frente às incontáveis manifestações por educação: de que tipo?

Não é preciso qualquer brilhantismo para compreender que os quinhentos anos de crise brasileira têm como um dos principais fundamentos, se não o principal, o esvaziamento contínuo das relações de autoridade preexistentes, tradicionais, sejam elas familiares, pedagógicas, institucionais, religiosas ou legais, as quais constituem um dos principais pilares do constructo civilizacional do Ocidente. Em todas as esferas, da autoridade parental à legal. No espaço escolar, esse esvaziamento é produto da aplicação pedagógica contínua, à partir dos anos 1980, das ideias construtivistas, de Jean Piaget, e socioconstrutivistas, de Vigotsky e Luria.

Marcadas pela rejeição ao modelo tradicional de educação, tais teorias delegaram ao discente o protagonismo de sua escolarização, ao mesmo tempo que minaram a hierarquia entre professor e aluno, assim como qualquer mecanismo visto como autoritário. Por trás dessa ressignificação, há a crença na pureza/bondade intrínseca da criança frente ao corrompimento promovido pelo meio. Não obstante, apregoa-se como fundamental, grosso modo, a abolição de métodos críticos, meritocráticos e corretivos, os quais castrariam emocionalmente a liberdade discente de expressão e a construção do próprio conhecimento de forma horizontal, não traumática. Assim, qualquer forma de repreensão ganhou o rótulo de antipedagógica, indesejada. Logo, esvazia-se a autoridade moral e o papel docente no processo de escolarização.

Todavia, a aplicação sistêmica desses modelos pedagógicos depende umbilicalmente da chancela da sociedade em que se insere, que os encerrará no formato de políticas públicas. Ou seja, há a necessidade incontornável do alinhamento entre os fundamentos pedagógicos e o escopo do imaginário social. Há tempos que se solidifica no ideário coletivo princípios avessos aos constructos hierárquicos e suas relações de autoridade e poder.

A composição desse quadro somente foi possível através da assimilação gradual da produção intelectual francófona vinculada aos eventos de 1968 na França. A Revolução dos Queijos e Vinhos, como brilhantemente apontou Luis Felipe Pondé, composta majoritariamente por universitários embriagados por suas biológicas utopias, mas norteados por um conjunto específico de ideias. Dessa forma, impulsionados pelo movimento, emergiram para o restante do mundo intelectuais como Louis Althusser, Hebert Marcuse e Michael Foucault. Juntos, os três são diretamente responsáveis pela contínua decomposição social que testemunhamos, somados aos tradicionais problemas franceses com autoridades e carros não incinerados. Sim, as ideias têm consequências. Genocidas da vida intelectual por sucessivas gerações, mas ainda assim catapultados pela impotência crítica contemporânea.

Embora autores de diferentes filosofias, há elementos essenciais em comum, dos quais se destacam o relativismo moral, a visceral negação às estruturas tradicionais de autoridade/poder e o intuito de fornecer ferramentas para a transformação social. Althusser, por exemplo, tratou da instituição escolar como um espaço de reprodução ideológica burguesa, equiparando-a a um espaço fabril, e seus professores, capatazes. Foucault, por sua vez, pregava contra a disciplina, a qual seria uma forma de dominação e homogeneização. No Brasil, terra dos absurdos banais, das capivaras roedoras de cartucheiras, são mais evidentes os escrachados efeitos da assimilação de tais filosofias. Epidemicamente, sociedade e academia foram tomados pelo torpor anestésico ideológico, cada vez mais distantes da realidade que diziam entender e ansiar modificar.

Consequentemente, as análises sociais especializadas passaram a endossar a implementação pública das teorias pedagógicas anteriormente citadas, das quais emergem indivíduos que, na vida adulta, castrados intelectualmente, tendem à adoção do mesmo prisma ideológico.

O resultado objetivo não foge aos olhos: a herança greco-romana, judaico-cristã, posta de joelhos frente aos destemperos emocionais de uma geração mimada e egocêntrica, cujos produtos intelectuais mais relevantes são bovinismos como microagressão, heteronormatividade e estupro reverso. O sentimentalismo como contraponto à razão. A academia que nega ciência. O uso do passado para legitimar privilégios presentes. A parada LGBTQ com manifestações antissemitas. O antifascismo fascista. Enquanto os filósofos da antiguidade contorcem-se em seus jazigos, os viventes tomam antidepressivos. E há outra alternativa? Aliás, cadê meu Rivotril?