A moça do kart

A DOR DOS OUTROS – A moça do kart não chorou. Inverteu a dor. Transferiu o sentimento para quem estava na arquibancada, pronto para ver o novo espetáculo em cartaz no cardápio cada vez mais variado das desgraças humanas.  A platéia pede e o jornalismo mostra. Ou se você preferir, o contrário também é verdadeiro.

A NEGLIGÊNCIA – A Débora tem 19 anos, é pernambucana e, todos viram, teve o couro cabeludo arrancado no motor de um kart na pista montada num Walmart de Recife.  O reimplante num hospital público foi mal sucedido.  A rede norte-americana de hipermercados bancou a negligência dos terceirizados que exploram a pista de kart. Uma simples camiseta com um capuz em forma de máscara serviria para proteger o cabelo da Débora e evitar o acidente.

RIBEIRÃO PRETO – Você se lembra das gêmeas siamesas do Ceará que tiveram as calotas cranianas separadas no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto? Débora fez o mesmo caminho. Saiu do Nordeste e veio para o interior paulista em busca de tratamento, só que no caso dela, num hospital particular. Tudo pago pelo Walmart.

UM CASO NACIONAL – Os maiores veículos de comunicação do país acompanham diariamente o caso Débora. A ainda poderosa Rede Globo fechou um contrato de exclusividade com o hospital particular para mostrar cada detalhe da passagem dela por Ribeirão Preto.

A CIRURGIA – A equipe médica retirou músculo, pele e vasos sanguíneos das costas de Débora para recobrir o crânio. É preciso proteger os ossos que ficaram expostos e irrigar a região para que não haja rejeição dos tecidos.

CÂMARA HIPERBÁRICA – Cinéfilos, quarentões ou cinquentões podem  lembrar de um dos primeiros sucessos de John Travolta, “O menino da bolha de plástico” (1976). É a história de um jovem que nasce com uma imunodeficiência e consegue sair de bolha hiperbárica ao se apaixonar por uma garota. De dentro da bolha, Débora conquistou nossos corações.

DÉBORA NA BOLHA – Após uma cirurgia preparatória para o reimplante, Débora está dentro da câmara que previne infecções. Um microfone instalado dentro da bolha permita que ela fale com o inseparável namorado. A repórter Ludmila Osório, da Record TV, se aproxima e grava em primeira mão o que poucos esperavam ver. No lugar da dor e do sofrimento, Débora abre um sorrisão, acena serenamente e manda uma lição. Em tempos de hipercomunicação, o alvo da notícia pode surpreender a platéia cada vez mais ávida pelo impacto da próxima notícia.