A chamada terceira via

A cúpula menor, voltada para baixo, abriga o Plenário do Senado Federal. A cúpula maior, voltada para cima, abriga o Plenário da Câmara dos Deputados Foto: Agência Brasil

No final dos anos 1980, o contexto da glasnost e da perestroika (“transparência” e “reestruturação”, literalmente) sustentavam interpretações neo-heguelianas como a do economista estadunidense Francis Fukuyama[1], que consagravam o capitalismo e a democracia burguesa como o ápice do progresso humano e propunham, novamente, o “fim da história”. Nesse mesmo contexto surgiu a terceira via, uma opção vista como conciliatória por sociais democratas europeus frente ao crescente antagonismo entre direita e esquerda, na ocasião, causado pelo avanço neoliberal promovido pelo consenso de Washington frente ao desgastado “socialismo real” que, por sua vez, revelava-se ao ponto que a “cortina de ferro” subia.

A terceira via contava com grandes entusiastas como o casal democrata Clinton dos Estados Unidos e o trabalhista Tony Blair da Inglaterra, e constituía-se de uma ideologia de centro-esquerda com formuladores como o sociólogo inglês Anthony Giddens e o cientista político estadunidense Robert Putnam. Sua versão original defendeu e defende uma política econômica conservadora conjugada a políticas sociais de caráter progressista, sendo assim, uma espécie de solução reformista para os estragos que o neoliberalismo da conservadora inglesa Margareth Thatcher e do republicano estadunidense Ronald Reagan vinham promovendo no padrão de vida dos trabalhadores de seus respectivos países. Enfim, se nas potências imperialistas o neoliberalismo promoveu estragos, a exportação do modelo para a periferia do sistema capitalista foi, e ainda é bem mais nociva.

No Brasil, por exemplo, a população não alcançou a universalização dos direitos sociais e trabalhistas como a classe trabalhadora americana e europeia que viveram o auge do welfare state entre os anos 50 e 60. Aqui não houve pleno emprego e o salário indireto despendido pela poupança pública não viabilizou um padrão de consumo que, em tese, elevaria o padrão de vida de toda a população, como ocorreu no centro econômico do sistema capitalista internacional. Assim, desde a redemocratização e o fim da censura, os meios de comunicação de massa brasileiros deixam explícito por meio do mantra das “privatizações” e das “reformas” – expresso de forma tão enfática pelos seus editoriais e articulistas da economia – sua preferência pelo conservadorismo econômico neoliberal, assim como sua preferência política por uma equivocada versão brasileira de social democracia.

No início dos anos 1990, após Fernando Collor – uma espécie de versão analógica de Bolsonaro cujo relacionamento com o grupo Globo também foi do amor ao ódio – iniciar a aventura neoliberal brasileira, a social democracia bananeira se alinhou ao consenso de Washington institucionalizando o neoliberalismo no Brasil por meio das reformas constitucionais de1995, dando início a dilapidação do patrimônio público com a entrega de estatais que atuavam em setores estratégicos para o mercado, e com a gradual precarização das relações trabalhistas, responsável por ampliar a dependência dos trabalhares pelos serviços públicos prestados por um Estado que a cada dia ampliava o direcionamento da poupança pública para setores do capital.

Atualmente, diante da fracassada tentativa de conciliação de uma plataforma econômica neoliberal com o tradicionalismo político do famigerado centrão, alavancados pelo reacionário bolsonarismo, o mantra das “privatizações” e das “reformas” vem acompanhado da “terceira via” como uma solução para “acalmar os ânimos do mercado”, uma vez que a acelerada agenda de desregulamentação e reformas que marcou os anos de 2016 a 2018 não avança como esperado, em grande parte, pela falta de capacidade de articulação política do atual governo. E assim temos a desagradável tentativa de um remake dos anos 1990, a volta da aclamada “terceira via” tupiniquim que se fortalece junto ao discurso da “polarização”, aliás, outro mantra midiático que completa uma farsa a altura desta república.

Em síntese, ao pensar em um programa político social democrata para o caso do Brasil, vislumbro, a princípio, o fortalecimento daquilo que é público e já existe, como o SUS, o SUAS e todo sistema educacional – das creches as universidades –, das empresas estatais e de capital misto que e são controladas pelo Estado – principalmente aquelas de setores estratégicos – e dos bancos públicos. E, em se tratando daquilo que é direito constitucional e esta sob o controle do capital privado, regulação e controle rigidamente alinhados ao interesse público. Isso é possível com o orçamento público brasileiro, porém, as prioridades do conjunto de forças que realmente detém o poder são outras. Em nenhum momento dessa breve síntese foi suprimida a atuação da iniciativa privada e da geração do lucro, portanto, isso é capitalismo em seus aspectos econômicos, conservador em termos políticos e, ideologicamente, um conservadorismo de esquerda.

Falando em farsa, acho que convém terminar da mesma forma que começamos, com Hegel e seus leitores, mas agora pelas palavras de um mais influente que o contemporâneo Fukuyama: “Em algumas passagens de suas obras, Hegel comenta que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes. Ele se esqueceu de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa”[2].

[1] FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

[2] MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

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