Há 100 anos Comercial ganhava a alcunha de Leão do Norte

Excursão vitoriosa ao Nordeste em 1920 conferiu ao clube o apelido pertencente aos pernambucanos

O ano de 2020 tem um significado muito especial ao Comercial pois marca o centenário de duas passagens memoráveis na história do clube. A invicta excursão ao nordeste brasileiro e a execução do seu hino pela primeira vez ao público ribeirão-pretano, no Jardim Público, atual praça XV, onde a Banda Independência, sob a regência do maestro José Delfino Machado. A letra viria somente nos anos 50, pelo professor Daniel Amaral Abreu.

O hino tocado em 6 de junho de 1920 havia sido composto ao som de flauta, por Belmácio Posa Godinho, semanas antes, a bordo do navio no percurso entre a Bahia e o Rio de Janeiro, após a volta triunfante da excursão em gramados pernambucanos no mês de maio.

Belmácio Godinho executou hino do Bafo na flauta – Foto: Acervo Igor Ramos

A excursão, que nesse ano completa 100 anos, representou a maior epopéia do clube e representa até hoje uma das mais belas páginas da história alvi-negra.

O apelido pelo qual é conhecido nos dias atuais surgiu exatamente neste ano de 1920 quando o Comercial aventurou-se em uma excursão no nordeste brasileiro, após receber um convite para excursionar por Recife, onde enfrentou os principais times pernambucanos. A saga fez surgir o cognome Leão do Norte, título então conferido ao Sport pelo seu triunfo, um ano antes, no Pará.

A história a seguir foi extraída do livro, Comercial – Uma Paixão Centenária, escrita em 2011 pelo jornalista Igor Ramos, atualmente integrante do Grupo Thathi de Comunicação.

Leão do Norte

Com vitórias memoráveis e enfrentando até uma batalha campal, o Comercial consagrou o seu time, dando-lhe fama nacional. Foram sete jogos por Recife, com seis vitórias e um empate. A jornada épica foi completada na Bahia, com mais um desafio vencido pelo esquadrão alvi-negro, totalizando oito jogos no Nordeste brasileiro, em uma campanha invicta. Por causa desta epopéia em gramados pernambucanos, o Comercial passou a ser chamado de Leão do Norte. Esta história será descrita a partir de agora, com a reprodução de alguns documentos e reportagens da época que permitiram detalhar os jogos em Recife e quantificá-los com exatidão, pois até então as informações sobre tais jogos eram divergentes, inclusive nos resultados.

Apesar de jovem, o time comercialino ja vinha conquistando fama pelo estado, notadamente pela sua organização, pelas suas modernas instalações, como o campo gramado – considerado um dos melhores do país – e principalmente pelos resultados dentro de campo. As vitórias nos amistosos intermunicipais faziam do Comercial uma equipe requisitada para duelos regionais. Até que surgiu o convite para o time se apresentar pela primeira vez fora da região sudeste.

No dia 22 de março de 1920 o Comercial recebeu um telegrama do Sport Recife convidando o clube para uma série de amistosos em Pernambuco. Os pernambucanos haviam tentado levar outras agremiações, mas teve a recusa de todas. Só o Comercial aceitou os desafios e para o Nordeste brasileiro se dirigiu, sem imaginar a repercussão positiva que a excursão lhe traria e as emoções que estavam reservadas.

Mas quem eram estes jovens que defendiam com tanto amor a camisa do Comercial e se dispuseram a uma aventura longe da sua cidade, em outra região do país? Eis um breve perfil dos comercialinos que tão bem representaram Ribeirão Preto.

Embaixada do comercial em Recife – Foto: Acervo Igor Ramos

Com seus bravos jogadores o Comercial vinha encantando o interior paulista com grandes partidas intermunicipais e vitórias e mais vitórias no currículo. O time acabara de ser vice-campeão do Interior pela APEA e já fazia de Ribeirão Preto, famosa pelo café e pela sua pujança cultural, conhecida também pelo bom futebol. Com a epopéia pelo Nordestes, a cidade do interior paulista e o seu brioso Comercial foram ainda mais comentados Brasil afora.  Vamos então embarcar nesta saga alvi-negra que teve início a partir de um telegrama-convite.

Com as passagens pagas pelos anfitriões pernambucanos, o Comercial partiu para uma longa jornada até Recife. Foram sete dias viajando entre trilhos e mar. De trem a embaixada fez escalas em Campinas, São Paulo até chegar no Rio de Janeiro, de onde seguiu de navio para o Nordeste.

A delegação viajou na manhã do dia 29 de abril, em um evento que agitou a ainda pequena Ribeirão [cerca de 60 mil habitantes]. Na despedida, na estação Mogiana, pessoas se aglomeravam para desejar sorte aos jovens atletas. Famílias completas, senhoras, cavalheiros, moças e crianças  juntos para acompanhar a partida e dar votos de felicidades aos rapazes comercialinos que se preparavam para longa jornada.

Lágrimas, saudades, lenços brancos e chapéus ao alto na partida da estação.  E assim o Comercial deixou a sua terra natal, abençoado pela sua gente, e sem imaginar que aquela excursão daria tanta repercussão.

A viagem transcorreu normalmente pelo trem diurno da Mogiana com baldeação em Campinas, onde a comitiva embarcou para o rápido da bitola larga_ da Companhia Paulista das Estradas de Ferro.

A chegada em São Paulo aconteceu à noite e a _embaixada_ ribeirão-pretana foi recebida gentilmente por diretores de clubes da capital, entre eles o Paulistano, São Bento e Palestra Itália. Era normal esta troca de gentilezas entre os times de futebol. A passagem por um time do interior pela capital mobilizou gente importante apenas para uma breve recepção.

O Comercial seguiu viagem na mesma noite, com o desembarque acontecendo pontualmente às 8 horas da manhã seguinte na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. De lá a delegação partiu direto para o cais no final da  avenida Central [hoje avenida Rio Branco]. A viagem até Recife foi à bordo do navio Itapuy, um costeiro que media 75 metros de cumprimento por 25 de largura e era considerado um dos melhores navios brasileiros a vapor, pertencentes à Companhia Nacional de Navegação Costeira.

Os jogadores logo se acomodaram nos confortáveis camarotes da embarcação e iniciaram a longa jornada, feita com escalas, pois o Itapuy também executava serviços de cabotagem e parava por horas para embarque e desembarque de cargas. Nestas escalas os jogadores conheceram as cidades de Vitória, Maceió e Salvador.

Um dos integrantes da comitiva, não identificado, deixou em seu diário de bordo os registros da saga comercialina em direção a Pernambuco, narrando pela primeira vez a longa viagem.

(...) A 1 de maio partimos do Rio. A 2 aportamos no pitoresco porto de Vitória, no Espírito Santo. Durante as duas horas da parada tivemos tempo de percorrer em automóveis diversos pontos da capital capichaba. Ali vimos pela primeira vez um coqueiro da Baia carregado de frutos. A 3 o navio passou a altura do Monte Pascoal.Hoje, dia 5 de maio, vem amanhecendo um bello dia, e a bordo vem intensa actividade. Pelo convez, aproveitando as horas matinaes, nossos rapazes, já refeitos do enjou do mar, praticam ligeiros exercícios físicos, ginásticas, corridas, pulos de corda, para animar os músculos. Aportamos cerca de 15 horas, muita gente aguarda nosso desembarque.(…)

[foi preservada a grafia da época]

Quando o navio Itapuy atracou na Bahia, os jogadores do Comercial foram recebidos ainda no cais e deste encontro surgiu o convite para que o Comercial jogasse em Salvador quando a ‘embaixada’ regressasse de Pernambuco.

(…) Os bahianos gentis em extremo, nos fizeram cativante acolhida, especialmente a mocidade das escolas superiores e das associações esportivas.

Um apetitoso jantar com comidas apimentadas a moda da Baia e uma rapaziada alegre, animada e sobretudo com muito apetite. A noite foi curta para vermos quasi tudo da Capital da terra de Ruy Barbosa e visitar redações dos jornaes. Pela manhã seguinte visitamos os clubes de futebol e regatas e percorremos pontos aprazíveis e associações recreativas. Os diretores da Liga Baiana de futebol nos fizeram convite para um jogo com o seu selecionado quando de regresso. A nossa direção prometeu resposta a ser mandada do Recife. As 9 horas o navio levantou ferros para o Recife (…_)   

A longa viagem de ida até o Nordeste teve seu desfecho no dia 7 de maio, quando os jogadores chegaram na capital pernambucana depois de quase uma semana à bordo do Itapuy. O desembarque aconteceu em uma sexta-feira. Eram 6 horas da manhã e uma grande comitiva foi receber os ribeirão-pretanos no cais Alfredo Lisboa, em Recife.

Ornamentado com folhagens e bandeiras, o local de desembarque da

delegação comercialina foi tomado por centenas de pessoas que queriam dar as boas vindas aos visitantes. Políticos, jornalistas, desportistas pernambucanos, acompanhados de suas famílias, levaram saudações aos jovens atletas paulistas.

Estadio Helvetico na vitória sobre o Santa Cruz por 1 a 0 – Foto: Acervo Igor Ramos

A imprensa pernambucana deu grande ênfase à chegada do time do Comercial, com crônicas a respeito daquele evento que parou Recife. O jornal ‘A OPINIAO’ descreveu assim a chegada da embaixada ribeirão-pretana, ocorrida no começo da manhã daquele dia 7 de maio.

A calorosa recepção do povo pernambucano, especialmente por parte dos cronistas esportivos e representantes dos clubes, marcou as três semanas do alvi-negro em Recife. Mas foi um paradoxo em relação ao que viria acontecer em um dos jogos do Comercial, quando uma verdadeira batalha campal foi protagonizada por torcedores enfurecidos com o triunfo dos paulistas sobre um dos seus times mais populares, o Santa Cruz. A confusão, registrada no quarto jogo da excursão, ganhou manchetes país afora e mobilizou até políticos preocupados com a segurança dos jovens de Ribeirão Preto.

Para alguns torcedores, a honra do futebol pernambucano estava sendo _ manchada_ com as seguidas e inesperadas vitórias dos paulistas. Aquele time surpreendeu os pernambucanos, que achavam que somariam vitórias e mais vitórias sobre os visitantes sem grandes dficuldades. Em crônicas dos jornais locais da época, era comum ver palpites com resultados sempre favoráveis aos times da casa. Ninguém acreditava que os _moços do Comercial pudessem atropelar seus adversários um a um. E foi o que aconteceu para surpresa geral.

De acordo com a programação feita pelos anfitriões, o Comercial faria o primeiro jogo contra o Náutico. Mas um problema de última hora fez com que o cronograma fosse modificado e o primeiro duelo foi contra um combinado América-Santa Cruz.  O jornal _ A OPINIÃO_  noticiou a mudança do jogo e incentivou publicamente seus jogadores, praticamente dando como certo o triunfo sobre os visitantes.

(…) Devido o veterano “Nautico” ter desistido de bater-se com o “Commercial” hoje, por motivos de doença em três de seus melhores jogadores o “Sport-Club”, de acordo com seus congêneres organizou um combinado de elementos puramente pernambucanos, que terá de enfrentar os nossos hóspedes em substituição aquelles. Muito embora este combinado fosse organizado a “ultima hora” estamos certos que não lhe será tão difícil a conquista da victoria. Um pouco de força de vontade e os Pernambucanos mostrarão seu valor. Coragem, moços que compõem o combindo pernambucano!…Pernambuco deposita em vós toda confiança!… Avante!…Não vos amedronte com o valor dos seus dignos competidores.Eis os quadros que se confrontarão hoje:

COMMERCIAL: Guião, Dantas, Franco, Thimóteo, J.Franco, Guimarães, Aché, Fernandes, Santinho, Quirino, Zico.

COMBINADO “ULTIMA HORA” : Ilo, Bebé, Ayres,Castro, Hero, Bibi, Lapinha, Baptista, Tasso, Gastão, Nequinho.

Reservas: O.Soares, M.Jacome, Firmino, Nobrega, Fernando e Lellys.

Santa Cruz 0 x 1 Comercial, em jogo realizado no Nordeste – Foto: Acervo Igor Ramos

Para este primeiro duelo o Comercial entrou com algumas modificações na escalacao, com Guimarães dando lugar a Lourenço e Juquita atuando improvisado no gol, pois o titular Alvino não estava 100% fisicamente.

O resultado vitorioso foi o cartão de visitas comercialino. A revista “A VIDA MODERNA” descreveu assim o primeiro jogo, realizado debaixo de muita chuva no estádio Helvetico, pertencente ao Sport:

 (…) “Domingo, o elegante stadium do rubro-negro apanhou uma concorrência numerosíssima avida por assistir ao sensacional encontro do “Commercial” com o combinado de jogadores locaes. Infelizmente, a chuva impertinente não permitiu que o jogo tivesse o brilho esperado. A victória do match coube ao conjunto visitante pelo score de 1 x 0. Não fosse o péssimo estado do campo, alagado pelas aguas das chuvas, a pugna teria sido realmente disputada. Também o combinado não teve um único treino de conjuncto, o que certamente contribuiu para que o mesmo não desenvolvesse um jogo mais efficiente e mais productivo. Esperemos os próximos encontros (…)

Os jornais não se mostraram convincentes do verdadeiro valor do Commercial F. C. e justificaram que o valente selecionado pernambucano poderia ter ganho a partida se não fossem a chuva e o mau estado do campo.

Veio então o segundo compromisso do time do Commercial, no dia 13, uma quinta-feira, contra o Sport, aniversariante naquela data. O time local havia acabado de conquistar o troféu Leão do Norte, em uma excursão realizada meses antes em Belém do Pará, o que lhe rendeu o lindo troféu em bronze ornamentado com um gladiador e um leão. A festa estava preparada para o 15 aniversário de fundação do clube pernambucano. Mas o que os rubro-negros não esperavam era um convidado indigesto como foi o Comercial, que estragou a comemoração. No primeiro relato, a visão do integrante ribeirão-pretano em seu diário.

(…) Foi disputadíssimo o jogo Commercial F. C. e Sport Club do Recife, realisado hontem, dia 13 de maio. O grande clube líder do Norte, organisado em possante conjunto, enfrentou decididamente os comercialinos. Lances empolgantes, defesas magistraes, ataques súbitos e velozes, a bola ia de campo a campo carregada pelo esforço e maestria dos jogadores. Dantas, com seu jogo firme e preciso, arrebatou de vez a assistência. Sagrou-se o melhor jogador em campo. Alvino fez magníficas defesas. Parrera secundou, firme, o triângulo final. A linha média dirigida por Franco, sendo nas alas Thimóteo e Guimarães, agiu com grande eficiência. Mas a linha de ataque atuou com grande destaque, muito homogênia, rápida, com perfeita e precisa troca de passes. Aché e Orestes, nas extremas agiram como excelentes pontas que são. O trio central, dirigido por Santinho, tendo nas meias Fernandes e Quinin, esteve assombroso. O Commercial logrou por três vezes vasar o goal dos pernambucanos, mas em compensação o Sport Club registrou para si dois pontos. Assim, o glorioso Commercial F. C. assinalou nos seus brilhantes anaes esportivos a sua marcante vitória nos campos de Pernambuco por 3 a 2(…)

O terceiro jogo do Comercial foi contra o Selecionado da LPDT – Liga Pernambucana – foi antecipado do dia 23 para o dia 16 e transcorreu em um campo alagado pelas fortes chuvas que caíram durante todo o dia em Recife e ainda mais prejudicado pela partida preliminar entre os segundos times de Sport e Santa Cruz.

Por esta razão, o duelo não foi dos mais técnicos. Mesmo assim, não faltaram emoções e gols. A chuva parecia querer impedir a entrada dos times em campo, mas foi o Comercial o primeiro a aparecer para receber os aplausos da torcida. Em seguida entrou o selecionado pernambucano, para o delírio de seus torcedores. A saída pertenceu ao Comercial e Santinho deu o pontapé inicial às 15h40 tocando para Fernandes. No primeiro tempo o time da Liga abriu o placar depois de uma cobrança de escanteio que Salermo escorou com a cabeça. O empate do Commercial saiu dos pés de Franco, em um chute de longe que o goleiro pernambucano aceitou após escorregar no campo molhado.

No segundo tempo o Commercial conseguiu a virada depois de um lance confuso na área pernambucana quando o jogador do time local tentou driblar dois jogadores do Comercial e escorregou, deixando a bola na medida para Fernandes marcar o gol de desempate. No final, o empate saiu depois que Thimótheo colocou a mão na bola e o árbitro deu pênalti. Na cobrança,  Neguinho empatou o jogo (2 x 2).

Depois de triunfar nas partidas iniciais da excursão, mantendo-se invicto, o Comercial enfrentou o jogo mais dramático e violento de toda sua história centenária. Foi no dia 20 de maio de 1920, uma quinta-feira.

A partida foi contra o Santa Cruz, o clube mais popular do Recife e que contava com o maior número de associados de todas as camadas. E até então a maior e mais terrível torcida dos campos pernambucanos_, como registra o diário de um dos integrantes da delegação alvinegra, publicado pelo jornal A Cidade, em capítulos, em maio de 1940. Antes do duelo, os jornais locais já davam uma demonstração do que poderia acontecer neste jogo contra o Santa Cruz. A revista esportiva A VIDA MODERNA_ parecia prever a confusão.

“Aproxima-se o match com o Santa Cruz F. C.. Os meninos cá de casa saberão defender galhardamente a honra do desporto pernambucano. Os paulistas irão medir forças com os _enfant terribles_!”.

Os jornais de Recife, que antes dos primeiros jogos divulgavam prognósticos desfavoráveis ao Comercial, inclusive publicando _scores_  elevados a favor dos times locais, deixaram de arriscar palpites, mas faziam apelos insistentes para que a equipe do Santa Cruz _defendesse a honra do futebol pernambucano_ .

O clima para este jogo tornou-se tenso, motivado principalmente pelos triunfos consecutivos do Comercial, que colocavam em xeque os pernambucanos, orgulhosos de seus scretes vitoriosos. E assim foi contado  o jogo encerrado antes da hora por causa da invasão dos torcedores e o conflito entre os jogadores iniciado pelos pernambucanos.

(…)_ O estádio está abarrotado. Todas as vastas dependências estão apinhadas. Há uma gritaria ensurdecedora quando os quadros do Comercial F. C. e do Santa Cruz F. C. alinham-se no gramado para o início da lucta. A pressão da torcida do Santa Cruz nos parece pesada. Alguma coisa nos diz que esse jogo não acabará bem. _ O Santa Cruz vencerá custe o que custar_ , é o que se ouve por toda a parte.Sob alaridos e aplausos inicia-se o prélio, começando logo da parte dos recifenses um jogo pesado. A brutalidade dos pernambucanos é visível. E a medida que o Comercial força com jogo de mestre o campo adversário, amiúdam-se os conflictos. A defesa pernambucana age pesadamente, brutalidade proposital para deter nossos dianteiros. Vários incidentes entre jogadores estimulam as _ geraes_ , onde cerca de duas mil pessoas torcem desmedidamente pelos santacruzenses. A pugna a princípio equilibrada já pende para os nossos. Uma arrancada rápida e o couro é alinhado lindamente nas redes do Santa Cruz.Reclamações. Paralisação do jogo. Vaias. Ameaças. O campo é invadido pelo lado das _ geraes_ … e o magistral goal do Comercial anulado pelo juiz, subjugado pelo temor daquele ambiente pesado e ameaçador.Reinicia-se o prélio. Continuam os incidentes, as ameaças, as vaias. Faltas imaginárias e absurdas são apitadas contra os nossos. A assistência das _ geraes_  vibra a cada brutalidade contra os comercialinos.Assim decorre o primeiro meio tempo. Durante o descanso regulamentar os nossos cuidam de seus ferimentos, comentam a brutalidade e as ameaças, mas não estão temerosos, antes animados em abater seu adversário terrível e amordaçar a sua torcida desabusada.A segunda fase também culminou pela brutalidade dos santacruzenses, aliás incentivada pelas _ geraes_ . Mas os excessos dos jogadores pernambucanos e a gritaria ensurdecedora das _ geraes_  parece que mais estimulavam, tornavam ainda mais rija a resistência dos nossos. Estamos dominando francamente o adversário. O juiz apita faltas absurdas. De uma feita, apanhando uma bola rebatida, o formidável Dantas deteve o extrema-esquerda do Santa Cruz fora da área e o juiz inexplicavelmente apita um pênalti contra o Comercial, sob o mais vivo regozijo e indescritíveis ovações de todo o estádio. Como era natural há protestos dos nossos. Tudo em vão. O juiz ordenou o tiro livre. O nosso Alvino numa defesa magistral e empolgante, maravilhosamente, num salto admirável, detém em suas mãos ágeis o couro violentamente atirado pelo center pernambucano. Um absoluto silencio paira por toda a parte, imobilizando tudo. Do lado das _ geraes_  ruge a torcida, com vaias, assovios, gestos, ameaças. Há uma tempestade no ar, prestes a deflagrar naquela enorme massa humana.O Comercial continua a jogar admiravelmente bem. De momento em momento a luta é suspensa para acudir jogadores nossos estendidos em campo pela brutalidade adversária. Todos os nossos estão machucados, canelas sangrando, corpos feridos, mas as suas arrancadas são impetuosas. Faltam 20 minutos para o final da tremenda peleja. O juiz sistematicamente apita _ of-side_  aos nossos quando estes invadem a linha de goal santacruzense. Um ataque fulminante da linha comercialina e Quinin, ágil e magistral, atira de longe um possante tiro sobre a cidadela pernambucana, fazendo estremecer as suas redes e assim conquista o primeiro ponto do Comercial. A gritaria nas _ geraes_  cresce, contagia, avoluma-se. É uma onda cheia de revolta, indignada por que vai perder. Faltam apenas 15 minutos para o final, Franco é derrubado por terra e calcado e pisado. Reage contra o seu agressor. As vaias nas _ geraes_  transformam-se em insultos, ameaças, gestos de ira, e um alarido ensurdecedor cobre todo o estádio e, súbito, deflagra o estouro.A cena é indescritível. Cerca de duas mil pessoas, saltando através das grades das _ geraes_  invadem o campo, assanhadas, rugindo, punhos fechados, e investem sobre o _ onze_  comercialino, inerte, surpreso, indefeso. Bengaladas, guarda-chuvadas, socos, pescoções, pontapés, uma cena selvagem. As arquibancadas correm em socorro dos nossos e a custo os rapazes conseguem refugiar-se no pavilhão central, sendo cercados pelo elemento de escol e pela família pernambucana, enquanto embaixo a massa agressora urra desesperadamente. Com a chegada de forças policiais conseguiu-se restabelecer a ordem no estádio. A esse tempo, cuidava-se dos ferimentos sérios sofridos principalmente por Franco, Quinin, Dantas e Santinho. E somente cerca de sete horas da noite conseguimos deixar o estádio, viajando em automóveis em cujos estribos soldados armados faziam a vigilância._..

A confusão também envergonhou o povo pernambucano e o desejo de que  o Comercial continuasse a jogar era na verdade um pedido de desculpas pela barbaridade ocorrida no jogo contra o Santa Cruz.

O jornal DIÁRIO DE PERNAMBUCO de 21 de maio de 1920 trouxe em suas páginas a notícia da pancadaria generalizada, porém dando a versão de que a briga teve início após um desentendimento de dois jogadores. Manoel Pedro, do Santa Cruz, e José Franco, do Comercial.

(…) _ Manoel Pedro quando procurava passar a bola recebe um pontapé de Franco atracando-se os dois em lucta corporal. Logo o quadro do Santa Cruz, com a honrosa exceção de 3 players, agride indiferentemente todos os jogadores do Comercial. Os assistentes da geral aos grupos, invadem o campo, armado de bengalas, faca e até pistolas.

Deu-se então um conflito sendo os infelizes rapazes do Comercial,  barbaramente maltratados.

 Fernando, em sério perigo de vida, foi salvo por um conselheiro da Liga, que o levou para o reservado da imprensa, onde deixou o guardado. Os dirigentes da Liga intervieram energicamente pondo os rapazes do Comercial a salvo de outros ataques. Do conflito, saíram feridos levemente: Santinho, Fernandes, Dantas, Oreses e J.Franco. Pelo dr.Júlio Machado foi preso um jogador do 2º time do Santa Cruz, na ocasião, em que armado de um punhal, procurava ferir o jogador Thimótheo_ .(…)

Mas para ficar o Comercial exigiu garantias de segurança afim de evitar novas invasões já que a torcida ficava à margem do campo, separada apenas por uma pequena cerca de madeira, de no máximo um metro de altura.  Foram comunicadas sobre a permanência do Comercial a Confederação Brasileira, no Rio de Janeiro, e a Associação Paulista, em São Paulo. Eis que o Comercial voltou a campo para novas conquistas.

Devido aos incidentes da partida contra o Santa Cruz, a Liga Pernambucana tomou todas as medidas para que o Comercial jogasse com tranquilidade naquele dia 23 de maio. Policiamento reforçado e um clima mais amistoso foi preparado para o embate com o América, bicampeão pernambucano.

Felizmente nenhum incidente foi registrado e ao contrário disto, os jogadores do Comercial foram recebidos com fidalguia e muitos aplaudos pela torcida recifense.

(…) No meio de um enthusiasmo indescritível, em que os applausos e os “hurrahs” ensurdeciam, uma nota dissonante, um grito offensivo não se ouviu. Isto honra a educação desportiva dos nossos torcedores que assim deram uma demonstração exhuberante de que não participaram e menos solidarisaram com as vergonhosas scenas de quinta-feira última (…), destacou o DIÁRIO DE PERNAMBUCO na sua edição de 24 de maio.

(…_) O jogo decorreu em meio a formidável entusiasmo de assistência numerosa que enchia o estádio do Sport Club. A vista dos graves acontecimentos verificados por ocasião do último jogo, o estádio esteve hoje rigorosamente policiado, com numeroso cordão de policiaes em torno do campo, e até dentro do gramado, além de centenas de moços dos clubs recifenses ostentando nos braços fitas com as cores pernambucanas e paulistas, zelando vigilantes pela ordem. Não se verificou o mínimo incidente, apesar da veemência dos contendores em busca da vitória. Os oitenta minutos de luta foram exaustivos e o couro era conduzido com maestria de campo a campo, num desejo incontido de arremessá-lo para as redes adversárias (…), narrou o integrante da delegação alvi-negra.

No campo o Comercial mais uma vez foi absoluto e venceu os alvi-verdes por 2 a 1. O primeiro gol foi marcado aos 19 minutos por Aché. O América empatou aos 19 do segundo tempo com Salermo. Mas a alegria dos pernambucanos durou pouco pois aos 26, Quinin aproveitou um cochilo da defesa adversária para marcar o segundo gol comercialino. Em cinco jogos o time já contabilizava quatro vitórias e um empate, para o espanto dos anfitriões. Mas ainda teria mais.  Três dias após derrotar o América, o Comercial voltou ao estádio Helvético para mais um amistoso. O adversário desta vez foi o Náutico Capibaribe.

Uma multidão acompanhou o jogo e viu novamente a equipe visitante deitar e rolar em solo pernambucano. O Comercial entrou em campo com novidades na escalação. Belmácio e Lourenzon iniciaram como titulares e a equipe manteve a mesma performance dos jogos anteriores.

O primeiro gol foi marcado por Franco na etapa inicial em uma cobrança de falta da intermediária. No segundo tempo, Fernandes acertou um chute forte de fora da área e marcou o segundo gol do Comercial, garantindo mais uma vitória.

Depois do jogo, os atletas do Comercial foram recepcionados no palacete do coronel Loyo Netto e participaram de uma festa no Torre Sport Club. No final, Náutico 0 x 2 Comercial.

A última partida em Recife, no dia 29 de maio, foi contra um selecionado escolhido a dedo. O combinado (_ scratch_ ) da Liga Pernambucana, foi cuidadosamente escalado para impedir que o Comercial vencesse mais uma.

A preocupação ainda tomava conta dos comercialinos, apesar de nenhum incidente ter sido registrado no jogo anterior. Mas a desconfiança nem por isto diminuiu e o último jogo em Recife foi nervoso, pelo menos até o momento em que os anfitriões tiveram que se render a superioridade do Comercial. Para os jornais pernambucanos, aquele seria o jogo em que o ‘Scratch’ local venceria pois tratava-se de uma seleção local. O jogo teve sabor de revanche depois da vitória comercialina no primeiro jogo da excursão contra praticamente o mesmo time. O que os pernambucanos não esperavam era mais uma derrota acachapante, de goleada. E foi assim, com cinco gols, que o Comercial despediu-se de Recife.

Encerrada a participação do Comercial nos amistosos em Recife, a delegação despediu-se de Pernambuco. Mais uma vez com clima de festa.

A bordo do navio Itassucê os jogadores iniciaram a viagem de retorno ao Rio de Janeiro e que teria escala em Salvador. A parada na Bahia foi consagradora para o Comercial. O convite feito pela Liga Baiana de Futebol foi reforçado com um telegrama de felicitação pelos triunfos em Recife e o pedido para que o Comercial apresentasse a sua equipe para os baianos, curiosos sobre o esquadrão que desbancou os fortes clubes pernambucanos.

Diante da insistência da Liga Baiana os jogadores do Comercial foram consultados pelo presidente da delegação, Leonel Orsolini, e decidiram aceitar o convite.

A chegada do Itassucê foi ao anoitecer do dia 1 de junho e a sequência da viagem estava marcada para as 9 horas do dia seguinte. Mas para que a partida acontecesse sem problemas, os dirigentes da Liga Baiana de Futebol tiveram de improvisar e pagaram alguns estivadores para que fizessem uma espécie de greve relâmpago com o objetivo de retardar o trabalho no porto de Salvador e permitir que houvesse tempo necessário para o retorno dos jogadores do Comercial ao navio que os levaria de volta ao Rio de Janeiro.

Assim como em Pernambuco, os jornais baianos deram destaque para a chegada do time ribeirão-pretano e para o jogo que seria realizado contra o scratch da Liga Baiana. Um time forte, que vinha treinando a espera do Comercial. Só que de nada adiantou. Os verdadeiros Leões do Norte passaram por cima do adversário vencendo por 2 a 1.  

Enquanto seus bravos moços jogavam e triunfavam no Nordeste brasileiro, as notícias chegavam a Ribeirao Preto através dos relatos enviados por telegramas e que se transformavam em notícias nos jornais. O Comercial era notícia em Ribeirão e em São Paulo. Os torcedores se aglomeravam na praça XV de Novembro ao final das tardes em busca das novidades e do resultados dos jogos. E a medida que o Comercial triunfava no Nordeste, aumentava a curiosidade na cidade. Todos queriam notícias dos rapazes que estavam orgulhando a cidade.  O correspondente do jornal O Estado de Sao Paulo atualizava quase que diariamente as informações sobre a passagem do Comercial por Pernambuco.

Os jornais A Cidade e Diário da Manhã tambem mandavam notas pelos seus representantes. O primeiro, por Leonel Orsolini e o segundo por Sebastião Moraes.

E a cada novo triunfo aumentava o orgulho dos torcedores pelo seu jovem clube. A chegada dos moços que vestiram com tanto brilho a camisa do Comercial era cada vez mais aguardada. A festa para receber a delegação mobilizaria a cidade.

Em Cravinhos a delegação alvi-negra pode então sentir as primeiras demonstrações de carinho da sua própria torcida. Torcedores que não aguentaram a espera e foram ao encontro do trem que trazia os jogadores. A festa em cada escala do Comercial era só um aperitivo do que viria na sequência, em Ribeirão Preto, quando a cidade parou para abraçar seus ídolos em uma festa poucas vezes vista nas ruas e salões. Foi a primeira vez que a população se mobilizou de maneira tão significativa em torno de uma equipe de futebol. Tal proeza coube ao Comercial.

A CAMPANHA COMERCIALINA EM PERNAMBUCO

09 maio _  Combinado América-Santa Cruz 0 x 1 Comercial
13 maio _  Sport  2 x 3 Comercial
16 maio _  Selecionado pernambucano 2 x 2 Comercial
20 maio _  Santa Cruz 0 x 1 Comercial
23 maio _  America 1 x 2 Comercial
26 maio _  Nautico 0 x 2 Comercial
28 maio _  Selecionado Liga Pernambucana 1 x 5 Comercial

Anos 20 repleto de grandes feitos

Depois de um final de década com grandes resultados,  os anos 20 foram importantes para a confirmação do  nome do Comercial no cenário esportivo paulista e  nacional. Após a bem sucedida excursão ao nordeste  brasileiro, o clube realizou uma série de amistosos que serviram para consolidar a sua fama e abrir as  portas para a sua entrada na primeira divisão paulista.  Isto tudo começou a ser construído entre 1920 e 1923.  Antes do ingresso na primeira divisão (1927) e um mês antes do  embarque para Recife (em maio de 1920), o alvi-negro seguia uma  rotina de jogos amistosos, dentro e fora de Ribeirão.  Um destes confrontos foi contra o badalado Club Athletico Ypiranga da capital. Neste duelo, no campo da rua Tibiriçá, muito  comentado na cidade e na imprensa paulistana, houve  empate por 0 a 0.

Semanas antes, o Comercial havia ganho o  título da Zona Mogiana da Divisão do Interior do Campeonato Paulista aproveitando-se da desistência do  Guarani.  Veio então a excursão para Pernambuco.  Na volta, outros amistosos importantes contra clubes de ponta. E a cada vez que estes jogos eram anunciados, a cidade se alvoroçava.

E foi assim em outubro de 1920 quando o Palestra Itália ser convidado para a disputa  de um jogo na cidade. O time da capital já havia enfrentado o Comercial em anos anteriores, como em 1916 (3 de  setembro) pela Taça Cruz Vermelha Italiana, com vitória  palestrina por 4 a 2,  em 29 de outubro pela Taça Colônia Italiana, com vitória do Comercial por 3 a 0. E em  1917 (30 de maio, empate por 1 a 1) e em 1918, com nova  vitória do Palestra (13 outubro).

Em 1922 o Comercial realizou o seu primeiro jogo internacional enfrentando a seleção argentina que estava no Brasil por causa do 5 Campeonato Sul-americano,  ocorrido no Rio de Janeiro e vencido pelo Brasil. A partida realizada dia 22 de outubro de no campo da rua Tibiriçá e terminou empatada por 1 a 1. Diante de um grande público que assistia ao duelo, o  Comercial saiu na frente com gol de Pequitote no primeiro tempo.  O empate dos argentinos só veio nos minutos finais do jogo depois da marcação de um pênalti. O time jogou com Alvino Grota, Armando Bergamini e Sebastião de Moraes; José Junqueira, Antônio Campeão e Thimóteo Grota, Belmacio Godinho, João Fernandes, Benedito dos Santos, Orestes Moreira (Piquetote) e Antônio Varella.