Escolas não devem reabrir, avalia comitê que analisa volta às aulas em Ribeirão

Documento foi disponibilizado nesta quinta (7); prefeitura deve decidir o que fazer sobre o assunto nos próximos dias

Sala de aula vazia - Foto: Reprodução

As escolas de Ribeirão Preto não devem reabrir. Essa é a posição do Comitê Intersetorial da Secretaria Municipal de Educação, que analisa o assunto, e consta de documento disponibilizado hoje pela instituição.

Nas recomendações do grupo, para avaliar a segurança para a reabertura da rede escolar municipal de Ribeirão Preto e sugerir qual são as pré-condições para uma reabertura segura da rede escolar, são considerados os seguinte parâmetros:  Novos casos oficiais/dia/100.000 habitantes;  Novos óbitos/dia; Imunidade populacional; Curvas de ocupação hospitalar; Taxa de transmissão do vírus (Rt); Testes. 

De acordo com a análise, em nenhum desses cenários a cidade estaria dentro dos critérios adequados para a volta às aulas. “Isso é logicamente inconsistente e grave do ponto de vista epidemiológico”, afirma o documento. A volta às aulas já foi contestada pelo Ministério Público do Estado, que analisa, ainda, se irá tomar alguma medida para evitar que isso ocorra mesmo caso a região de Ribeirão Preto seja “promovida” à zona verde do Plano São Paulo. 

Ao avaliar os parâmetros utilizados pelo Plano São Paulo, apontam que os pesos atribuídos geram um modelo preditivo muito ruim do estado da pandemia. “Eles basicamente dimensionam a capacidade de internação e resposta clínica (e mensuração de letalidade) à covid-19, irrespectivamente da gravidade de disseminação do vírus na sociedade.”

Pelo mundo

Os pesquisadores ainda exemplificam que a reabertura de escolas em vários países, sem medidas reais de combate à pandemia, fez com que em quase todos tivesse que ser revertida em nível nacional ou regional, com um grande número de pessoas infectadas.

“Talvez o único caso bem-sucedido a ser listado é o da Nova Zelândia. Não por acaso, talvez seja o único país em que se aplicou estritamente o protocolo TRIS (Teste, Rastreamento e Isolamento com Suporte).  O exemplo da Nova Zelândia mostra que a reabertura da rede escolar não pode ser vista como um evento separado do combate eficaz à pandemia como um todo através de um plano consistente. A abertura das redes escolares não pode ser feita como algo separado de um plano ou sem um plano geral. Ela é parte e consequência desse plano”, avaliam.  

Ainda sobre as recomendações, o grupo cita o artigo Reopening Primary Schools during the Pandemic, publicado no New England Journal of Medicine, que traz a importância do ambiente escolar para o desenvolvimento não apenas acadêmico, mas também físico e socioemocional e se referindo às escolas como atividade essencial. “Não há contestação aqui dessa perspectiva, mas eles consideram condições de transmissão moderada, quando menos de 10 novos casos por dia a cada 100 mil habitantes, em países que efetivamente testam sua população — como o valor máximo aceitável para abrir a rede escolar.  

Pífio

Ministério Público em Ribeirão Preto – Foto: Divulgação/Sindicato dos Servidores

Sobre isso, alertam que o volume de testes para Ribeirão Preto é pífio, de 8,1% da população da cidade no dia 22 de setembro. Já quanto à positividade dos testes o ideal é que esteja em torno de 5%, com a busca de casos assintomáticos, mas em Ribeirão Preto a positividade acumulada é de 44,2%.

“E por protocolo, a cidade não faz rastreamento a partir dos que testam positivo e não identifica os positivos assintomáticos e sintomáticos leves na população, que continua circulando livremente. Isso significa que o volume real de vírus circulando na cidade é muito superior ao que é medido através dos testes dos casos sintomáticos mais graves.”

Já a média móvel para sete dias em 22 de setembro foi de 178,7 novos casos/dia, o que corresponde a mais de 25,1 novos casos/dia por 100 mil habitantes, apenas com os resultados de sintomáticos testados. 

Números

Os números oficiais mostram que Ribeirão Preto está em um patamar elevado de transmissão comunitária por um número grande se semanas consecutivas, o que explica a mortalidade excepcionalmente alta na cidade. Isso foi demonstrado no porcentual da população que apresenta anticorpos, a pior cidade no Estado de São Paulo, com um valor que é o dobro da média nacional, em um estudo financiado pela Fapesp divulgado em 17 de setembro. 

“Esse não é um cenário que permita a simples reabertura da rede escolar, a despeito de quaisquer protocolos de distanciamento no funcionamento das escolas quando abertas. Apenas a testagem é capaz de detectar em tempo crianças e profissionais com transmissibilidade na rede escolar, evitando que haja uma enorme disseminação que afete as crianças, mas também os profissionais e os familiares das crianças, aumentando a taxa de óbitos na cidade.”

O documento é assinado pelos professores Dalton de Souza Amorim, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP), e Domingos Alves, do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina (FMRP), ambos da USP em Ribeirão Preto, e ainda pela doutora Adriana Santos Moreno, pesquisadora da área de Alergia e Imunologia Clínica e professora do programa de pós-graduação da FMRP, e foi aprovado pelo Comitê Intersetorial da Secretaria Municipal de Educação.

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