Nova variedade de pimenta é criada em universidade da região de Ribeirão

Batizada de Maria Bonita, especiaria se destaca por sabor adocicado, suave picância e alta produtividade

Nova espécie de pimenta foi criada na Ufscar - Foto: Divulgação

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) desenvolveram uma nova espécie de pimenta, a Maria Bonita (MB). O diferencial de mercado é a maior produtividade, que chega a dobrar a das variedades mais comuns, além do paladar mais suave. A expectativa é que a variedade chegue ao mercado ainda em 2020.

A pimenta recebeu o nome de Maria Bonita para homenagear milhares de mulheres brasileiras, já que o nome Maria é muito popular no País. Os pesquisadores integram o Centro de Ciências Agrárias (CCA) do Campus Araras da Ufscar.

Considerada um dos principais condimentos utilizados no mundo, a pimenta – especialmente as variedades pertencentes ao gênero Capsicum – ganhou, há séculos, o gosto e a mesa dos brasileiros, consumida in natura, em molhos, conservas, pastas e em inúmeras receitas doces e salgadas. O mercado e o consumo de pimenta são crescentes e exigem que novas cultivares sejam desenvolvidas, com melhor qualidade de frutos e mais aromas e cores. No Brasil, o sabor mais suave da pimenta tem melhor aceitação do consumidor (como é o caso da pimenta Biquinho, uma das mais utilizadas pelos brasileiros), além de ser mais versátil para confecção de geleias, conservas e molhos.

Histórico

A variedade surge em 2020, ano em que a Universidade completa os seus 50 anos, com características inéditas em relação às pimentas existentes, conforme destaca Fernando Sala, docente do  Departamento de Biotecnologia e Produção Vegetal e Animal (DBPVA-Ar) do CCA e um dos responsáveis pela produção da MB:

“A Maria Bonita consegue produzir mais que o dobro das pimentas comuns do mercado, com cada pé rendendo de 10 a 12 quilos e em curto espaço de tempo. Além disso, tem frutos três vezes maiores que os da pimenta Biquinho, por exemplo, além de serem uniformes, lisos, de coloração vermelha intensa e brilhosa e de formato de coração. Também, como diferenciais, tem maior espessura de polpa e, assim, frutos mais pesados, ótima característica para colheita; menor acidez e maior concentração de sólidos solúveis – açúcares -, conferindo um sabor mais adocicado; e uma leve picância, algo que, já sabemos, agrada bastante os brasileiros”.

Nova espécie de pimenta foi criada na Ufscar – Foto: Divulgação

De acordo com Sala, a Maria Bonita é de duas a três vezes mais picante que a Biquinho, 100 vezes menos picante que Dedo-de-Moça e 10.000 vezes menos picante que Carolina Reaper (a pimenta mais ardida do mundo). “Além disso, sua acidez é muito baixa, ficando em torno de 0,3% – enquanto a Biquinho, por exemplo, tem o dobro da acidez. Por ter baixa acidez, seu sabor adocicado é destacado, conferindo à Maria Bonita uma característica única”, completa o pesquisador.

Combinação ideal

Para chegar a esta variedade de pimenta, os pesquisadores realizaram um programa de melhoramento genético, que consiste no cruzamento de linhagens, utilizando o Banco de Germoplasma do Campus Araras da UFSCar – uma espécie de coleção de pimentas com mais de 400 variedades, oriundas de várias partes do mundo.

“Desde 2010, o programa de melhoramento genético desenvolveu várias linhagens de pimenta com diversos atributos quanto a formato, tamanho, coloração e, principalmente, com diferentes teores de pungência – que diz respeito ao ardor ou à picância da pimenta. Esse projeto recebeu o nome de Quenturinha Tropical. Nosso objetivo foi desenvolver híbridos de pimenta, por meio do cruzamento das linhagens, para produzir plantas mais produtivas e com melhor qualidade de frutos”, conta Sala.

Cruzamento

Nesse projeto, a Maria Bonita surge a partir do cruzamento de uma pimenta oriunda da Amazônia com a pimenta Biquinho. “Para combinar, em uma única cultivar, várias características de interesse, o mais comum é a produção de híbridos. Ou seja, quando fazemos o cruzamento de uma linhagem com outra, produzimos um híbrido que agrega as características de qualidade das linhagens cruzadas. A Maria Bonita é justamente uma cultivar híbrida – o primeiro híbrido pertencente à espécie Capsicum chinese. Foram dezenas de cruzamentos até encontrarmos a combinação desejada e muito especial ao paladar, com um toque suave de pungência aliado à doçura. É uma inovação, pois não há, no mercado mundial, uma pimenta que alie essa combinação. Seu uso em conservas, geleias, molhos e pastas será uma grande descoberta para os amantes da pimenta”, garante o professor.

Toda a pesquisa foi desenvolvida no CCA, em parceria com a Empresa Feltrin Sementes, de Farroupilha (RS), apoiadora do projeto. “A Feltrin é a empresa licenciada, com exclusividade, para comercializar a semente desta pimenta. Ou seja, nós, da UFSCar, desenvolvemos a tecnologia e a empresa a multiplica, produzindo e reproduzindo a semente. Assim, o produtor rural já pode ter acesso a esta variedade”, conta o pesquisador.

Participaram da produção da nova variedade de pimenta da UFSCar, além de Sala, Cyro Paulino da Costa, docente aposentado da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), professor voluntário da UFSCar até 2017 e doador do Banco de Germoplasma para a Instituição; Marcela Martinez, mestre em Produção Vegetal e Bioprocessos Associados pela UFSCar; e Tiago José Leme de Lima e Eduardo do Amaral, servidores técnico-administrativos do DBPVA-Ar.

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