Vinte anos de Renan Inquérito: poeta, professor, mestre e doutor do som

    Confira um papo exclusivo com um artistas mais interessantes do rap nacional 

    Renan Inquérito é uma das boas caras do rap nacional - Foto: Divulgação

    Paulista de Nova Odessa, Renan Inquérito completa 20 anos de carreira em 2019 e relança, mês a mês, faixas dos seus sete álbuns desse período. Caso não conheça (vá ouvir), Renan foi professor de Geografia, deu aula na Unesp, tem mestrado e doutorado na área, e mais do que um rapper, é um educador que usa a arte para empunhar sua bandeira, que provavelmente tem como símbolos lápis, caneta, caderno, livros, fones de ouvido e outras armas letais para a ignorância. Ele fez parte dos movimentos iniciais do rap no Brasil, nas ruas, enquanto ainda empreendia sua jornada pelo mundo acadêmico.

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    Se sucesso é concretizar suas buscas, Inquérito teve sucesso nas duas carreiras. Faz oficinas em escolas, Fundação Casa, Caps, e outras instituições do gênero. Mas o coração dele bate em quatro por quatro, no tempo do rap, e esse virou sua ferramenta mais abrangente para espalhar ao mundo que o conhecimento transforma. “Eu acho que o MC é uma figura muito próxima do professor. Todo professor é um MC! Eu muitas vezes na sala de aula fui muito mais MC que professor. Lembrando que MC é apenas uma sigla para Mestre de Cerimônia. O professor é um mestre de cerimônia, a sua cerimônia é a aula.

    E diferente do rap, que o MC canta cada vez para uma plateia diferente, o professor canta sempre pra mesma platéia então ele tem que ter todo dia um repertório diferente. E o Mc de Rap não, então ele tem esse privilégio. Eu sou um MC, sou mestre pela academia, mas sou mestre sem cerimônia nenhuma (rs) e sou mestre de classe também porque sou professor. Então a minha carreira mistura tudo isso”, ele disse em papo por vídeo para esta coluna. As respostas, em vídeo, estão lá embaixo, no fim do texto. 

    Os dois últimos trabalhos, mais recentes, Corpo e Alma (2014) e Tungstênio (2018), são obras-primas. O primeiro, tem produção executiva de Emicida que também canta numa potente parceria que dá nome ao disco. Participações de Arnaldo Antunes, KL Jay e outros, produções e arranjos muito bem elaborados e até uma versão completa remixada lançada em 2016. O segundo, entre outros, conta com Zeca Baleiro, e uma narrativa que entrelaça as músicas com didática e linguagem que se conecta com o público, relacionando o metal Tungstênio com a vida e o rap, fazendo o que costuma fazer há vinte anos, ensinar: 

    “A gente é que nem os metais, tá ligado?
    Uns são suave, outros pesa, uns são comuns, outros raros
    Mas tem um que é zika: tungstênio
    Duro e pesado como a realidade
    Não é papo de nerd, nem de breaking bad
    Tungstênio é resistência!
    Tá no celular, computador, micro ondas
    e naquele fiozinho da lâmpada acende, ilumina!
    Presente nos aparelho cirúrgico que salvam vidas todos os dias, como o hip-hop”

    Agora, Renan Inquérito acaba de lançar “Dia dos Pais 2.0” na série de relançamentos comemorando os 20 anos de carreira. Os arranjos e letras estão atualizados, demonstrando o amadurecimento de duas décadas na música. “Revisitar minha obra foi um verdadeiro bumerangue. Foi como lançar uma rede nessa história e puxar e trazer muitas coisas, muitas pessoas, memórias, lugares, muitos sons, muita informação. Inevitável lembrar o que tava acontecendo no Brasil e no mundo quando eu fiz cada uma dessas músicas. O primeiro disco é de 2004 mas começou a ser produzido em 2002 e 2003, o mundo era outro, o brasil era outro, eu era outra pessoa. Foi gratificante buscar isso, relembrar tudo isso. E quando eu escolhia cada uma dessas músicas eu já fazia o link rápido. Quem eu chamaria pra tocar? Quem chamaria pra cantar? O que mudaria nessa letra? Dá pra virar a música de ponta cabeça? Tive a licença poética de alguém que está comemorando. Foi como um #tbt musical, no linguajar de hoje, né (rs). O Bumerangue trouxe essa nova roupagem, com tudo muito atual mas também muito enraizado. Antenas e raízes. Esse é o bumerangue que correu vinte anos. E foram vinte anos luz”, conta Renan. 

    O trabalho com aura de comemoração segue até o fim do ano com singles lançados mensalmente. Sobre os próximos 20 anos, ele faz algumas previsões (uma delas, pelo que vi por aí, exclusiva e antecipada aqui nesta modesta e singela coluna: vai lançar um álbum infantil em 2020). “Eu sei o que quero fazer nos próximos anos, nos próximos 20 é difícil. Quero continuar trabalhando com o rap não só como música mas como ferramenta de interferência social. Continuar juntando música e educação passando por poesia, saraus, flertando com teatro e outras performances que usam o corpo e a palavra. Quero fazer um disco de rap pra crianças no ano que vem. É um grande objetivo que tem muito a ver com o meu trabalho. É isso, continuar. Por mais vinte anos luz!”

    Assim seja.

    O papo teve outros pontos muito interessantes, como a educação no Brasil e o momento atual do rap repleto de ostentação e outras cositas más, tudo em vídeo abaixo. Assista:

    1 – Como foi pra você reexaminar sua obra para esse relançamento de trabalhos antigos? Que balanço você faz dos 20 anos de carreira?

     

    2 – Você é um caso raro de rapper e professor, deu aula desde a Fundação Casa até a UNESP e defende constantemente nas suas letras a necessidade de o público estudar. Como esse diálogo entre o mundo acadêmico e o rap interferiu na sua arte?

     

    3 –  Em vinte anos de rap e educação, o que é que mudou no Brasil?  

     

    4 – Seu trabalho traz valores muito discrepantes dos novos artistas do rap que fazem sucesso, principalmente na internet, com ostentação material e uso de drogas. Sabe onde eles estavam enquanto a sua geração construiu a base do rap no Brasil cultivando com preciosismo o conteúdo que era propagado pela música? 

     

    5 – Já pensou no que pretende fazer pelos próximos 20 anos de carreira?