A Guerra dos Paulistas: conheça a história do feriado de 9 de julho

Para os paulistas, o governo provisório chefiado por Getúlio Vargas se transformara em uma ditadura; haviam insatisfeitos por todo país, mas só os paulistas declararam guerra ao governo federal

Um protesto, na praça da Sé, no dia 25 de Janeiro de 1932, acabou levando o país a uma guerra sangrenta. Envolvendo mais de 200 mil homens, armados, uma guerra que envolveu uma artilharia pesada, com combates aéreos, bombardeios de grandes cidades e até batalhas navais. Brasileiro contra brasileiro, em um confronto violento. 

A Revolução de 1932 foi um movimento organizado por uma elite política alijada do poder por um golpe em 1930 que retirou uma oligarquia e colocou outra, liderada por Getúlio Vargas. Teve desdobramentos violentos na forma de conflitos por regiões do estado de São Paulo, adesão popular e uma ruptura dos aliados de São Paulo no início do conflito armado que acabou deixando os paulistas sozinhos. Ela ganha contornos de uma guerra civil a partir de uma bandeira política que é o constitucionalismo dos paulistas que exigiu uma nova carta constitucional, uma vez que a vigente desde 1891 estava revogada.

Segundo o cientista social, Gabriel Papa, apesar da aura democrática constitucional e participação popular em especial no que tange às mortes dos combatentes, as reivindicações eram políticas. “Contudo, cabe destacar que é um episódio político importante que desencadeia uma certa discussão historiográfica”, afirma Papa.

Antecedentes

De 1889 a 1930, o Brasil vivia a República Velha, conhecida como politica do café com leite. Nesse período, a sucessão presidencial eram ditadas pelos centros econômicos do país. Os dois polos, São Paulo, café, e Minas Gerais, leite, forjavam as lideranças nacionais, mantendo acordos com outros Estados para que essa dinâmica política e econômica não fosse quebrada.

Mas no ano de 1929, alguns fatores contribuíram para o fim dessa política de oligarquias. A quebra da bolsa de Nova Iorque provocou a queda da compra do café brasileiro pelos países europeus e o Estados Unidos, afetando a economia. A fragilidade nacional aumentou com as revoltas tenentistas e greves operárias. A vulnerabilidade do regime oligárquico teve o ápice quando, o então presidente, Washington Luís apoiou a candidatura do paulista Julio Prestes, desagradando a oligarquia mineira, já que a sucessão teria que ser de um político mineiro.

Revolução de 1930. Foto: Domínio Público

Então surgiram alianças de oposição. O político mineiro Antonio Carlos Ribeiro de Andrada entrou em contato com o representante do sul, Getúlio Vargas para formar uma aliança de oposição, junto o estado de Paraíba. Os três representantes junto com parcelas do movimento tenentista e oposições aos demais governos estaduais formaram a Aliança Liberal, lançando Getúlio como candidato. Na eleição, 1 de março de 1930, Julio Prestes teve resultado favorável.

A Aliança Liberal só decidiu pegar as armas e alçar Vargas como presidente, após a morte de João Pessoa, seu vice, em julho do mesmo ano. A oposição alegou que o governo federal, de Prestes, era o responsável pela morte de Pessoa. Após incursões militares, uma junta provisória militar depôs Washington Luís e assumiu o comando do país até a chegada de Getúlio Vargas com as tropas ao Rio de Janeiro, capital do Brasil na época. A junta provisória, no dia 3 de novembro de 1930, transferiu o governo para Vargas. Assim, iniciando o Governo Provisório.

A insatisfação

O novo governo causou algumas alterações políticas no Brasil. Assim que assumiu, Getúlio Vargas revogou a Constituição de 1891, alegando o objetivo de estabelecer uma nova, dissolveu o Congresso Nacional, instituiu uma intervenção do governo federal nos governos estaduais, afastando nomes influentes da oligarquia paulista no governo. A insatisfação de São Paulo aumentou quando Vargas apontou como governador do estado o militar pernambucano João Alberto Lins de Barros.

Esse era o cenário quando chegou o ano de 1932. Movimentos paulistas alegavam que o país vivia uma ditadura, seguidas interferências, o governo não estava cumprindo sua tarefa para elaborar uma nova Constituição e que o Estado de São Paulo era considerado como um inimigo conquistado, pois, teoricamente, sua população apoiou Julio Prestes. Já o governo Vargas e aliados acusavam os paulistas de apenas desejar o retorno das oligarquias cafeeiras locais no poder federal, de serem contra a participação política de outros estados e que parte das oligarquias paulistas eram separatistas e queriam acabar com o Brasil.

Movimentos se fortaleceram e protestos aconteceram em São Paulo, na busca da nova Constituição. Martha Lins Michelino fala que os paulistas queriam mesmo a instituição de uma nova Constituição, mas alerta para um interesse próprio de São paulo. “Em relação às exigências de nova constituição sim, tanto que era a principal bandeira política do movimento paulista. Era mais evidente uma exigência de uma autonomia política de São Paulo frente ao Governo Federal capitaneado por Vargas e subjacente ao interesse de São Paulo de retomar o controle do poder federal”, conta.

Movimento MMDC

Cartão Postal do MMDC, símbolo do movimento. Foto: Domínio Público

As tensões entre governo federal e São Paulo se agravaram no dia 23 de maio de 1932. Nesse dia ocorreu um grande protesto contra a presença de Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, em São Paulo, para pressionar o governo paulista. Um grupo de manifestantes tentou invadir a sede de uma organização pró-governo e Euclides Bueno Miragaia, Drauzio Marcondes de Sousa, Mário Martins de Almeida e Antonio Américo Camargo de Andrade foram mortos. No dia seguinte o movimento recebeu o nome de MMDC.

“Estoura uma bandeira do movimento no sentido de sensibilizar a sociedade paulista pela morte de jovens que lutavam por ideais políticos. Apenas um deles, Drauzio, de 14 anos, era estudante. Ficaram conhecidos assim porque após a morte dos integrantes, houve uma manifestação, dentro de uma série de outras que já estavam ocorrendo, organizada por estudantes”, conta o cientista social Breno Carlos da Silva.

9 de julho

As relações entre paulistas e governo federal pioraram e no dia 9 de julho de 1932, foi lançado uma proclamação da junta revolucionária conclamando os paulistas a lutarem contra o governo Vargas. Os paulistas acreditavam ter o apoio de outros estados que teriam sidos traídos pela revolução de 30, como Minas Gerais e, principalmente, Rio Grande do Sul. Mas os paulistas ficaram praticamente isolados.
 
Os confrontos entre constitucionalistas e tropas de Vargas foi desigual. São Paulo enviou suas tropas com pouco armamento, por questões econômicas, tendo como principal núcleo a força pública paulista, polícia estadual. Enquanto Vargas contou com o apoio de tropas de todos os estados brasileiros e do exercito da marinha.
 
O conflito foi uma guerra civil com batalhas espalhadas pelo Estado de São Paulo e ocasionou milhares de mortes. A principal frente de guerra foi o Vale do Paraíba, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. Para evitar que mercadorias e armamentos chegassem aos paulistas, a marinha brasileira bloqueou o principal porto do estado, o de Santos. A situação mais marcante foi o uso de aviões de combate pelos dois lados.
 
A mobilização social foi essencial para a continuidade do conflito. Para apoiar as tropas paulistas, a indústria e universidades de São Paulo buscaram elaborar a construção de armamentos, como blindados improvisados. E para suprir a ausência de fuzis, alguns soldados utilizavam matracas para criar o som de metralhadoras. Segundo o cientista social Gabriel Papa, o envolvimento e força paulista teve contribuição da propaganda. “Na forma de recrutamento, de doação de recursos e mobilização popular. Sem a propaganda, o contingente das forças paulistas não teria angariado tamanhas proporções para a época”.
 
O conflito durou três meses, quando os paulistas se renderam, pois estava devastado economicamente. Como consequências, os principais líderes civis e militares do movimento foram exilados para Portugal. São Paulo teve a nomeação de um interventor civil e paulista, uma das exigências do movimento, e além disso alcançou uma de suas principais bandeiras, pois em 1934 Vargas promulgou uma nova carta constitucional (que seria revogada em 1937). Contudo, a elite paulista que capitaneou o movimento não logrou a sua retomada do controle político federal.

Legado

É muito comum esbarrarmos em monumentos e nomes de ruas que relembram a revolução de 32. Em Ribeirão Preto, por exemplo, temos a avenida Nove de Julho e um monumento na praça XV de novembro, no Centro.”À Epopéia de 1932″, foi instalado na praça ribeirão pretana em 1939 e representa um soldado constitucionalista e uma mulher amparando um soldado morto. Em 9 de julho de 1982 foi instalada uma placa em homenagem aos que morreram na Revolução de 1932, comemorando o cinquentenário da revolução.
 
Mas segundo o cientista social Olavo Negrão Pereira Barreto, mesmo com algumas conquistas com a derrota, o movimento não poderia ser considerado uma revolução. “Existem muitas controvérsias não resolvidas que nos impedem de categorizar o movimento de 32 numa condição revolucionária na acepção do conceito, pois não havia uma proposta de transformação sistêmica e não se alterava as relações de poder herdadas dos grupos oligárquicos. Apesar da bandeira constitucionalista ser um princípio democrático fundamental, não contemplava as demandas dos movimentos populares da época”, afirma Barreto. 
 
Olavo Negrão Pereira Barreto ainda acrescenta que o movimento não defendia plena democracia. “Não podemos dizer que haviam ideais revolucionários, mas sim ideais políticos que almejavam uma reconstitucionalização do país. Contudo, se pensarmos em termos de uma democracia ampla no que tange às cidadania eram ideais que deixaram muito a desejar, uma vez que não contemplavam o sufrágio universal nem políticas públicas de inclusão social que pudessem dirimir as desigualdades sociais e reduzir os poderes oligárquicos políticos”, concluiu o cientista social.