Pela internet, homens vendem e trocam fotos de calcinhas usadas pelas próprias filhas

Imagens de peças íntimas são divulgadas em grupos das redes sociais; especialistas veem crimes nas ações

Um grupo de pessoas se reuniu para denunciar a atividade de grupos que comercializam e trocam, em perfis nas redes sociais, imagens de roupas íntimas, especialmente calcinhas. Pelo menos um desses grupos é composto por pessoas que vivem na região de Ribeirão Preto. Há casos onde pais expõem peças das próprias filhas.

Um dos maiores grupos do tipo é o Bau de Calcinha, composto por mais de 5,3 ml pessoas no Facebook. Uma das denunciantes conseguiu aprovação para entrar nele – o acesso é restrito – e conseguiu fazer dezenas de prints das postagens. Nelas, pessoas aparecem postando imagens de calcinhas, com descrição sobre quem é a dona. Há relatos de gente que tenta vender as peças, mas também muitos que querem trocar imagens sem custo.

“É um grupo nojento, onde homens nojentos vendem roupas intimas usadas até mesmo por suas filhas”, conta uma das denunciantes, que já procurou a polícia e prefere se manter no anonimato.

Postagens

A reportagem teve acesso a dezenas de postagens que ocorrem em dois desses grupos. Localizou, ainda, pelo menos mais nove espaços semelhantes nas redes sociais. Um dos organizadores de um desses grupos chegou a conversar com a reportagem, mas, momentos depois que foi informado sobre o teor da matéria, apagou seu perfil nas redes sociais.

Antes de saber que falava com um jornalista, ele fez perguntas com o objetivo de aprovar a entrada do jornalista que conduziu a matéria em um desses espaços. “A gente tem que checar, né, não podemos deixar qualquer um entrar. É muito restrito e seguro”, disse o administrador. A reportagem optou por não publicar o nome dele, mas irá encaminhar a conversa às autoridades policiais.

Denúncia

Incomodados com as publicações, internautas – na maioria mulheres – começaram a compartilhar nas redes sociais denúncias sobre o assunto. Um grupo no whatsapp foi formado para levantar informações sobre grupos que realizam esse tipo de atividade.

“Esse caras aproveitam todo tipo de situações pra roubar, expor e se masturbar com calcinha de mulheres de todas as idades. Tem caras que foram fazer serviço e tiraram fotos das calcinhas, tem pai vendendo calcinha de filha, padrasto mostrando calcinha de enteada e falando que se masturba olhando”, conta Jannayna Silva, uma das organizadoras do movimento de denúncia, que informou, em suas redes sociais, que a polícia já foi acionada para investigar o caso.

A reportagem procurou a Polícia Civil de São Paulo para saber detalhes sobre o investigação, mas não conseguiu retorno até o fechamento da matéria.

Análise

De acordo com o professor Daniel Pacheco Pontes, doutor em Direito Penal pela Universidade de São Paulo (USP), as pessoas que afirmam, nas redes sociais, terem furtados peças íntimas de mulheres para vendas podem ser enquadradas no crime de furto. Além disso, podem, dependendo do caso, ser enquadradas no crime de importunação sexual, especialmente se houver relação próxima entre autor e vítima, como pai e filha ou marido e mulher.

“Tudo dependerá, certamente, da análise da autoridade. Como advogado, não vejo dessa forma, mas é possível fazer uma interpretação da lei e incluir esse tipo de ação, especialmente de pessoas próximas do autor. No Ministério Público, certamente haverá quem enquadre dessa forma”, avalia o advogado Daniel Rondi, também especialista em direito penal.