Vendedor de vacina denuncia pedido de propina de US$1 por dose, feito pelo Governo Bolsonaro

Fonte representa a empresa Davati Medical Supply, que negociou com Ministério da Saúde em fevereiro; caso foi divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo nesta terça-feira (29)

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Uma distribuidora de vacinas contra a Covid-19 disse que o Governo Federal queria receber propina de US$1 por dose vendida, em troca do fechamento do contrato de vendas com o Ministério da Saúde. A apuração, divulgada nesta terça-feira (28), é do jornal Folha de S. Paulo que conversou com um representante da empresa Davati Medical Supply.

Segundo Luiz Paulo Dominguetti Pereira, a cobrança da propina teria vindo do próprio diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, durante um jantar no restaurante Vasto, no Brasília Shopping, no dia 25 de fevereiro. Na época, o governo foi procurado para negociar 400 milhões de doses da vacina Astrazeneca  a um valor de US$3,50 por dose, que depois passou para US$15,50 

“O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto Dias foi uma coisa muito tenebrosa, muito asquerosa”, disse Dominguetti.

Dias foi indicado para o cargo no Ministério da Saúde pelo líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). O jornal chegou a tentar entrar em contato com o representante da pasta, mas ele não atendeu às ligações. 

Negociação 

Segundo o representante da Davati, a negociação foi intermediada por Cristiano Alberto Hossri Carvalho, que se apresenta como procurador da empresa no Brasil e também aparece nas negociações com o Ministério.

“Eu falei que nós tínhamos a vacina, que a empresa era uma empresa forte, a Davati. E aí ele falou: ‘Olha, para trabalhar dentro do ministério, tem que compor com o grupo’. E eu falei: ‘Mas como compor com o grupo? Que composição seria essa?’”, contou.

“Aí ele me disse que não avançava dentro do ministério se a gente não composse com o grupo, que existe um grupo que só trabalhava dentro do ministério, se a gente conseguisse algo a mais tinha que majorar o valor da vacina, que a vacina teria que ter um valor diferente do que a proposta que a gente estava propondo”, disse Dominguetti.

O representante conta qe chegou a dizer que não teria como fazer o que era pedido. ​”Eu falei que não tinha como, não fazia, mesmo porque a vacina vinha lá de fora e que eles não faziam, não operavam daquela forma. Ele me disse: ‘Pensa direitinho, se você quiser vender vacina no ministério tem que ser dessa forma”.

Questionado sobre qual seria a forma proposta para que o negócio fosse fechado, Dominguetti respondeu:”Acrescentar 1 dólar”. 

“E, olha, foi uma coisa estranha porque não estava só eu, estavam ele [Dias] e mais dois. Era um militar do Exército e um empresário lá de Brasília”, ressaltou Dominguetti.

Roberto Dias, diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Encontro 

Questionado se a pessoa que encontrou era, de fato, o diretor de logística, Roberto Dias, o representante da Daviti respondeu: “Claro, tenho certeza. Se pegar a telemetria do meu celular, as câmeras do shopping, do restaurante, qualquer coisa, vai ver que eu estava lá com ele e era ele mesmo”.

“Ele [Dias] ainda pegou uma taça de chope e falou: ‘Vamos aos negócios’. Desse jeito. Aí eu olhei aquilo, era surreal, né, o que estava acontecendo”, relata.

“Eu estive no ministério, com Élcio [Franco Filho, ex-secretário-executivo do ministério], com o Roberto, ofertando uma oferta legítima de vacinas, não comprou porque não quis. Eles validaram que a vacina estava disponível”, completou.

Na mesma data em que ocorreu o jantar a qual Dominguetti se refere, o Brasil alcançou a marca dos 250 mil mortos pela Covid-19, em 25 de fevereiro. Na véspera de uma agenda oficial com Roberto Dias no Ministério da Saúde. 

“Fui levado com a proposta para o ministério e chegando lá, faltando um dia antes de eu vir embora, recebi o contato de que o Roberto Dias tinha interesse em conversar comigo sobre aquisição de vacinas”, disse.

“Quando foi umas 17h, 18h [do dia 25], meu telefone tocou. Me surpreendi que a gente ia jantar. Fui surpreendido com a ligação de que iríamos encontrar no Vasto, no shopping. Cheguei lá, foi onde conheci pessoalmente o Roberto Dias”, afirmou.

Recusa 

À Folha, Dominguetti disse que o pedido de propina foi recusado.  “Aí eu falei que não fazia, que não tinha como, que a vacina teria que ser daquela forma mesmo, pelo preço que estava sendo ofertado, que era aquele e que a gente não fazia, que não tinha como. Aí ele falou que era para pensar direitinho e que ia colocar meu nome na agenda do ministério, que naquela noite que eu pensasse e que no outro dia iria me chamar”.

“Aí eu cheguei no ministério para encontrar com ele [Dias], ele me pediu as documentações. Eu disse para ele que teriam que colocar uma proposta de compra do ministério para enviar as documentações, as certificações da vacina, mas que algumas documentações da vacina eu conseguiria adiantar”, afirmou ao jornal.

O grupo

O representante da Daviti contou que teve dificuldades para conseguir fechar o acordo com a pasta, problema que, inclusive, foi atribuído por Roberto Dias a um grupo dentro do Ministério da Saúde que Dominguetti deveria agradar. 

“Tinha um grupo, que tinha que atender a um grupo, que esse grupo operava dentro do ministério, e que se não agradasse esse grupo a gente não conseguiria vender”, disse Dominguetti sobre fala do diretor de logística da Saúde.

Questionado sobre qual seria o grupo seria citado por Dias, o representante respondeu: “Não sei. Não sei quem que eram os personagens. Quando ele começou com essa conversa, eu já não dei mais seguimento porque eu já sabia que o trem não era bom”.

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