Vozes

Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado RODRIGUES/AGENCIA SENADO

Velho e pouco decadente, percebo que posso ter sentimentos inquestionáveis. Dois deles me incomodam: a elegância diária da loira da TV e a voz indescritível de Verônica. Poucas vezes na vida, observei tamanha postura e identificação com a notícia quanto a essa gaúcha da EPTV, uma loura danada de cinematográfica e que sabe comandar como ninguém o principal noticiário do dia. Consegue ser simpática mesmo diante de notícias infames e sem expressão. É jornalista que sabe fazer caras e bocas diante de qualquer assunto. Seja tragédia, seja receita de comida, seja um breve anúncio de tempo e/ou temperatura que nunca se concretiza.

Não há como negar aos mais chegados o amor recolhido em minha alma pela voz cada vez mais carinhosa e encantada de Verônica Ferriani. Chico César, em conversa pessoal, distraída e abstrata, confirma o que digo. Tem orgulho – ele – de ser cantado em verso e prosa pela filha dos amigos Carlos Roberto e Flávia. Casei várias vezes; namorei outras tantas, e descubro o mais que óbvio: minhas mulheres – ex e atuais – não cantam. Nunca tive o privilégio de ser despertado com essa voz. Talvez precise mais que isso. Quem sabe experimentar a morte, para sonhar (e, assim sonhando) preconizar a própria vida.

Quintana certamente mede alguns bons metros acima de minha minguada estatura poética e literária. Não ouso me comparar. Mas saber de seu amor pela gaúcha conterrânea Patrícia Poeta serve-me de consolo. Meus amores platônicos sussurram notícias e cantam o Brasil com mais e maior sutileza. Por elas, vendo e ouvindo, sorrindo e emocionando, creio-me disparar à frente dos passarinhos e passarão. Como jornalista, cometo o pecado intencional do desinteresse descarado da melhor novela em atual exposição: a CPI da Covid-19.

Seria cômodo e confortável permanecer na zona da tranquilidade, sem confissões ou ritos pessoais. Mas a inquietude que corre em minhas veias certamente fala mais alto. Sem força ou vontade para amores pessoais, recorro-me às paixões inspiradoras de Platão. Sem esquecer, claro, de O Banquete. Amar essas duas mulheres – pelo que fazem e representam – é apenas um detalhe sem a menor importância. Fazem-me, elas, mais feliz e completo ao fechar do dia. São amores que adoro amar: a notícia na medida exata e a música excedida muito além de seus próprios limites.

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