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Manual prático e ilustrado sobre como não ser jornalista

Peço licença aos leitores para fugir (bastante) ao tema deste blogue. Há três décadas, quando comecei a brincar de jornalista na Folha de S.Paulo, a principal dica que recebíamos dizia respeito à isenção e absoluta necessidade de mantermos uma saudável distância, tanto de integrantes do poder público como, em especial, dos objetos das nossas matérias.

Digo isso porque, nesses trinta anos de trabalho, poucas vezes me senti tão envergonhado como esta semana, durante a coletiva pós-jogo do técnico do Flamengo, Jorge Jesus.

Obviamente, como torcedor fanático do Internacional de Porto Alegre, achei a vitória do time do técnico português sobre o Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense, por 5 a 0, uma verdadeira maravilha. Quarta-feira, dormi sorrindo e acordei na quinta ainda com os dentes à mostra. Uma prova inequívoca que Deus existe e é colorado.

Mas o motivo desta publicação não é a vergonha que o Grêmio passou no Maracanã, mas a vergonha que aconteceu depois.
Após a coletiva do treinador do Flamengo, praticamente todos os jornalistas presentes aplaudiram o profissional, em uma demonstração ridícula, provinciana, estúpida de como representantes da imprensa devem agir.

Vem daí a minha vergonha. Quando um jornalista, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo faz uma matéria fantástica, onde a construção dos fatos demonstra, sem dúvidas, o argumento principal, ou o lead, não deixo de ficar com uma ponta de orgulho por fazer parte dessa categoria profissional.

Na quarta-feira à noite, ao contrário, foi inevitável sentir uma ponta de vergonha e desconforto quando vi pessoas que deveriam se comportar como profissionais agirem, no mínimo, como torcedores.
Foi uma clara demonstração de falta de respeito, em primeiro lugar, com os seus leitores, que não esperam deles libelos a favor de A ou B, mas fatos. Foi uma vergonha para eles, que tornaram pública a sua incompetência profissional e a falta de isenção para lidar com a razão da sua matéria.

Atualmente, ser jornalista talvez seja uma das profissões mais difíceis do mundo, por causa de uma combinação perversa de crise no setor, falta de discernimento das empresas de comunicação sobre os caminhos a seguir, excesso de mão de obra no mercado e o surgimento de pessoas que sabem escrever e acham que isso é suficiente para ser jornalista. Tudo isso resulta em salários e condições de trabalho humilhantes para quem se arrisca a ser jornalista profissional.

Nunca acreditei que o jornalismo estivesse em crise. O jornalismo impresso, sim, mas isso é inevitável. Mas sempre acreditei que quem escreve bem em papel, continua escrevendo bem em meios digitais. As regras do bom jornalismo – expressas nas boas e velhas seis perguntinhas (que, quando, quem, onde, por que, como), aliadas a um lead criativo, valem para papel, LCD, rádio ou TV. Isso não muda.

Ou muda? O que se viu no Rio de Janeiro não foi apenas uma vergonha para quem trabalha com jornalismo, foi um estupro de uma regra básica ética da profissão: quem se está entrevistando não é amigo. Jornalista, quando está a trabalho, não tem amigos, tem fontes. Isso por um motivo muito simples: nós somos uma arma poderosíssima, que permanentemente tenta ser utilizada por uma fonte ou grupo para prejudicar ou destruir adversários. Principalmente em política e esportes.

Por isso, existem perguntinhas básicas que devem ser respondidas quando recebemos uma informação: por que essa pessoa está me passando isso, qual é o interesse dela e, por fim, isso é realmente de interesse público?
Na coletiva do Rio de Janeiro o que se viu foi um bando de idiotas que jogaram por terra, em rede nacional, o trabalho sério de centenas de jornalistas deste país, que trabalham dez, doze horas por dia para poder entregar informação de qualidade para o seu leitor.

A eles – e existem alguns assim em Ribeirão Preto – peço desculpas publicamente pela atitude não de colegas, mas dos imbecis que se levantaram para aplaudir o técnico do Flamengo, após a coletiva. A vocês leitores, peço desculpas por terem assistido a um exemplo do que não é jornalismo ou de como profissionais de imprensa devem se comportar na relação com o seu entrevistado.

Mas, infelizmente, me parece que isso é só o começo.

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José Manuel Lourenço
Tem 55 anos, nasceu em Angola, é jornalista e bacharel em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos últimos oito anos foi editor do jornal A Cidade, de Ribeirão Preto. Antes disso, trabalhou na Folha de S.Paulo e Diário do Povo, em Campinas e jornalista em diversos veículos de comunicação em Portugal. Também é pai de uma Duda maravilhosa.