VOLTAR, RETOMAR OU DESISTIR?

José Fernando Chiavenatto, é jornalista

Aquele que desconhece a verdade é simplesmente ignorante. Aquele que a conhece e a afirma como mentira, esse é um criminoso.”
(BERTOLD BRECHT

José Fernando

ANDO ‘BRABO’ COMIGO MESMO. Tenho ensaiado textos que nunca publico e encontrado temas que jamais desenvolvo. Uma espécie de cantor rouco, quase sem voz e que perdeu o ritmo. O suicídio seria uma solução; jamais (para mim, pelo menos) uma opção. Difícil rezar missa e duvidar da existência de Deus. Ocorre-me o mesmo com a política. As decepções e desencantos são maiores do que as raras e quase inexistentes oportunidades de crença ou esperança. Torno-me sem perceber um velho bobo e burramente infantilizado ao elevar o intelecto à estatura das boas perspectivas. À estas alturas, já deveria estar calejado contra esse universo negativo e sem futuro. Rendo=me sei lá a que ou à quem. Nesses momentos imagino-me como seria acreditar em Deus e esperar que milagres realmente aconteçam. Esforço-me, mas não sou competente.

O MUNDO PARECE REDESCOBRIR a morte. Tropas russas massacram civis – crianças, inclusive – como se fosse uma balada de final de semana. O Brasil insiste em matar piolhos imaginários para combater uma crise bacteriológica mundial. Ribeirão Preto assiste senhoras caindo de ônibus, cujas portas são ‘amarradas’ por fios de arame. A sociedade normalizou o caótico e agora convive com quase ternura com ‘o impossível acontece’. Tornamo-nos reféns da mediocridade humana. Perdemos o senso do que seja – ou deveria ser – governo e governantes. O Legislativo tupiniquim é cínico e inútil. Finge que existe e fantasia-se de cores oficiais de quem ocasionalmente ocupa o Palácio Rio Branco. É um teatro mambembe, com lonas esburacadas e picadeiro de luxo.

POLITICAMENTE, O BRASIL empobreceu. A produção de novos atores é miserável e insuficiente. A política tem culpa e deve ser responsabilizada. Muito do que foi falsa e hipoteticamente solucionado pela Justiça – com a participação direta do Ministério Público – escapou pelos dedos gagos dos nossos nem tão ilustres representantes. Para que, afinal, votamos? Qual vantagem temos em escolher nossos representantes? O Brasil é um orfanato gigante de eleitores. Filhos do nada, da puta ou de oportunismos baratos. Mas nos travestimos de cidadãos e fingimos que nossa escolha pessoal tem importância ou fará diferença logo ali, na próxima esquina sem curva. Bobagem. Tempo perdido.

TRISTE VERDADE: SOMOS insignificantes e manipulados pela mídia ou pelos fake-news. Vítimas voluntárias das mentiras absolutas que o dia-a-dia nos impõem. Hora de retornar ao título destas queixosas e bem traçadas linhas: Vamos em frente, voltemos ao princípio, reiniciamos o velho caminho com passos inovadores ou sepultamos de vez nossa vã filosofia? O Brasil tem jeito. Há nomes para comandar as mudanças necessárias ou damos um passo decisivo diante do abismo que se abre sobre nossos pés? O fim do caminho todos conhecemos. Sobre o reinício, nada sabemos. Mas entre um e outro, apesar do desconhecido, é preciso acreditar na esperança. Que o Deus do ateísmo me ilumine.

(Jornalista e escritor das antigas, que tenta enxergar o Brasil sem miopia política ou catarata social. É um teimoso profissional, alguém que ainda acredita que dias melhores virão; mas sabe que o pior sempre vence a corrida da tragédia. “O ser humano precisa ser reinventado, essa geração não deu certo”, confissão que o autor jura ter ouvido de Deus)

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