Nada é impossível

Há um vocabulário de insossos no Legislativo tupiniquim. O número de puxa-sacos inúteis supera uma parca bancada que tenta ou pensa ser vereador. Diminuímos nossa representatividade e pioramos – em muito – a qualidade, que já era pouca ou inoportuna. Duarte Nogueira, fantasiado de prefeito, enxerga feito coruja em noite de tempestade. Cooptou por piscadelas a maioria suficiente dos parlamentares para ir sonhar com anjos em spas de luxo. Não foi flagrado, deixou-se fotografar.

Doze alegrões travestidos de autoridades cumpriram o combinado. Trouxeram para o estômago do Legislativo uma indigesta refeição, revestida por uma marmita recheada por cargos, carguinhos e cargões. Votos foram permutados sob os holofotes da imprudência. De fiscalizadora, a solerte Câmara de vereadores transformou-se em um inexpressivo curral de vaquinhas de presépio. Cordeirinhos, nada além. E nem era preciso. Os R$17 milhões seriam repassados de qualquer maneira. Com ou sem aprovação dos habituais bajuladores.

Não há como explicar tamanha servidão. E para que? Ou para quem? O universo político só foi despertar uma semana após, quando a novata Duda Hidalgo, do interior de um PT desgastado pela inércia dos últimos governos, resolveu apelar ao Ministério Público. Mas a esquerda representativa neste congresso de caipiras ainda não aprendeu a fazer barulho. E nem oposição. É, por enquanto, um amontoado de ideias anacrônicas e projetos desorganizados. Sem brilho, quase inconsequente por falta de caminhos.

A mixórdia só teve uma consequência: expôs a fraqueza e fragilidade de nossos vereadores. Submetem-se sem rubor e sem esforços. Um deles – Jorge Rodini – mostrou que de Novo não tem nada. Confessou publicamente ter votado sem ler o projeto. Nada mais antigo em política de subserviência. Alexandre Maraca – presidente dos iguais – fez o que não precisava: votou e defendeu o projeto; bastava usar seu cargo de isenção para melhor representar o MDB.

Duarte Nogueira fez o que qualquer governante tucano faria: gargalhou às escâncaras por encontrar tão facilmente parceiros para sequestrar os cofres públicos. As ricas empresas de transporte coletivo – as mesmas que compõem o tal Consórcio – foram presenteadas com milhões de reais. Ainda assim, negam-se a repassar ao mesmo Governo cerca de R$13 milhões devidos, pelo gerenciamento da Transerp. Importante é que todos saíram felizes. E nós pagamos a conta. Como sempre, aliás.