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Morrer sem pressa

Portugal está longe de ser o melhor lugar para morrer. Vive-se por aqui, dia após dia, as melhores oportunidades de vida. Desisto da pena de morte logo ao tocar o solo da cidade do Porto. A decisão, claro, é pessoal, mas sua efetividade independe do que penso ou imagino ser o melhor caminho. Há anos, me ocorre agora, discuti essa ideia com meu irmão. Ele sugeriu morrer solitário em um quarto de pensão em Lisboa. Fui contra, baseado em dois ou três cálices de um bom vinho do Porto. Só iria dar trabalho, desse a constatação à distância e o transbordo para terras tupiniquins. Bobagem. Vejo hoje o quanto a sapiência dele é muito maior e mais oportuna do que minha reles intuição. Morrer por aqui, rodeado por poucos amigos sinceros e uma dieta de paladares alcoólicos fariam bem a qualquer pessoal.

Não se deixem levar pelas palavras. Estou sem pressa de morrer, embora me desperte uma inconsequente ‘desvontade’ de viver – acrescente a isso ser brasileiro e sem condições de sobreviver em qualquer outro quintal – mas impossível não estabelecer um elo entre a vida e a morte quando tudo nos parece ainda mais inatingível. O tempo nos é a absolutamente infiel e traiçoeiro, e quanto mais o conhecemos, ainda mais ele nos trai. Tenho medo de conviver com a velhice, dependendo do pão de cada dia, da bondade da descendência e sob o olhar piedoso de quem nem mesmo conhecemos. A morte, ainda que não a flertarmos, deve ser a melhor companhia. Pois que venha. Sem pressa ou atropelo.

Portugal me trata mal de tal forma, que me irrita saber que um dia terei de partir. Festa dos amigos no Porto, pessoas que há tempos não vejo; e o abraço do José à beira do avião em Lisboa. Nas largas avenidas do Rossio, nada melhor do ser reconhecido pela vendedora de castanhas assadas. Moro logo ali, sei bem disso, mas minha vida anda por cá. Nos becos escuros sem perigo e nas ruas estreitas bem alicerçadas do fado vadio. Devolvo este amor com doses exageradas de Ginja ou Favaios. Na pausa, um bom vinho do Porto vem a calhar. Fazer o que, sou mesmo um exagerado – até mesmo antes do inesquecível Cazuza.

Vejo por aqui que as pessoas que me importam sentem saudade. E pedem que eu escreva no singular. Discordam – professores e escritores – do plural. Pouco importa. Sinto-me querido e desejado. Saudade é sentimento, não é regra cartesiana de literatura ou linguagem. Já é noite em Lisboa, faz frio e as luzes tentam iluminar novos atalhos. Deixo o texto de lado, fecho as contas e me deixo cair nos braços da madrugada. Estou em Alfama e algo me diz que as sombras da madrugada ainda vão revelar histórias encantadas. Algumas, talvez, eu possa revelar. Outras, certamente, vou carregar para sempre na memória. Aos que ficam, aos que me acompanham, um brinde pelo carinho e amizade.
(Jornalista e escritor das antigas, que tenta enxergar o Brasil sem miopia política ou catarata social. É um teimoso profissional, alguém que ainda acredita que dias melhores virão; mas sabe que o pior sempre vence a corrida da tragédia. “O ser humano precisa ser reinventado, essa geração não deu certo”, confissão que o autor jura ter ouvido de Deus)

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José Fernando Chiavenato
José Fernando Chiavenato
Jornalista e escritor