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É uma casa portuguesa, com certeza

HOJE É DIA DE SÃO JOSÉ TAMBÉM POR aqui. Os portugueses aproveitam e comemoram o dia dos pais. A data atende aos apelos mercantilistas, é claro, mas o comércio não tem o que comemorar. As lojas estão fechadas, os shoppings vazios e raros são os filhos ou netos que irão lembrar-se da data. A Europa está mergulhada na maior depressão de sua história pós-guerra. O clima de dor e desespero é percebido de imediato. Basta uma volta nos extensos quarteirões de Lisboa para sentir. Onde havia alegria e euforia, hoje colhe-se angústia e tristeza.

NÃO CONVIVI COM A SEGUNDA GUERRA mundial. Nem poderia, não era nascido. Mas o velho bigodudo que frequenta a Padaria do Bairro – a quem todos do lado de dentro do balcão chamam de ‘seu Nonô – sim. Ele é dramático ao lembrar sua juventude e as incontáveis dificuldades enfrentadas por toda a família. Prevê tempos iguais. Falta de mantimentos, dinheiro escasso, doenças e isolamento. Alimenta de histórias, sei lá se verdadeiras ou não, a pequena plateia de funcionários e fregueses. Toma seu café com leite, uma torrada e se vai.

APESAR DA APROXIMAÇÃO DA PRIMAVERA, o frio resiste bravamente aqui na Europa. Há dias de sol forte, momentos de calor durante a tarde, mas os ventos que sopram do oceano põem tudo a perder. As manhãs e as noites, principalmente, são frias e úmidas. Até mesmo para quem mora por aqui. Esse obrigatório ‘encapotamento’ de pessoas ajuda a criar um clima mais tenso e sem aproximação. Poucos, raros mesmo, são os que ainda se cumprimentam com as mãos. Os beijos faciais já não sobrevivem. O novo Corona Vírus engoliu a todos.

ATÉ PORQUE AS EMISSORAS DE TVS NÃO permitem. O noticiário sobre a doença é inesgotável, os números são atualizados a cada momento – inclusive aí do Brasil. Em muitos canais foram liberados os sinais fechados. Há filmes e algumas boas ofertas. Mas o que prevalece, mesmo, são as reprises de novelas, brasileiras inclusive. Seja qual for o programa exibido, quase todos os canais televisivos por aqui exibem uma tarja na tela, bem exposta e em caracteres acima do tamanho natural: #fiqueemcasa.

MAS PARA QUEM NÃO PODE CUMPRIR a determinação do Governo – quase toda a Europa está sob Estado de Emergência – o transporte público é gratuito. Nas ruas, os ônibus e bondes circulam em todas as direções, sem cobrança ou limitações. As catracas das estações do Metro estão livres e desimpedidas. Ainda assim o movimento é fraco, os vagões transitam quase solitários. As filas, antes longas e incertas, diminuíram nas portas das farmácias. Foram substituídas por modestos cartazes: “Não temos álcool gel e nem máscaras”.

PASSA UM POUCO DAS QUATRO DA manhã e a SIC (canal 3 aqui no hotel) já se debruça sobre o assunto. Reúne médicos, sanitaristas e técnicos de outras áreas para abordar o assunto do dia. Ao vivo, o apresentador faz questão de apontar o relógio e destacar as manchetes de jornais de todo o mundo. Desta vez, nenhum do Brasil. Pela janela do oitavo andar, o que vê é uma Lisboa triste, preguiçosa e sem vontade de despertar. As histórias do ‘seu Nonô’ começam a criar fantasmas. Vejo-as passar por entre as árvores, sombras e um parque Alameda absolutamente vazio. O COVID está vencendo a guerra. Até quando?

José Fernando Chiavenato
Jornalista e escritor