Despedidas

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Não se impressione, não me sinto atraído e nem próximo da morte. Mas vou começar a despedida de parentes e amigos. Confesso: sou antibolsonarista e faria qualquer bobagem – até mesmo votar em Lula da Silva ou Luciano Hulk – a ter que suportar um novo período desse ilustre idiota que nos governa. Bolsonaro é o lixo político da Terra. Um negacionista idiota e um genocida por excelência. Incomoda-me vê-lo seguido por tantos outros iguais, alguns a quem ainda devoto (ou devotava) amor e confiança. Essas 85 palavras acima já devem me afastar de alguns amigos ajumentados e de um bom número de parentes ou familiares idiotizados.

Devem ter razões que desconheço. Amigos e familiares. Afinal, não são todos os que são informados das quase 500 mil mortes por falta de vacinas, oxigênio ou de kits de intubação. Nem mesmo devem saber que a falsa e criminosa campanha por uma cura precoce ajudou a elevar esse número absurdo de mortes. Mais que isso. Esses bons amigos e seletos familiares devem acreditar que o uso de máscaras seja apenas mais uma bobagem alardeada pela ciência. Talvez, até mesmo, duvidam da eficácia das vacinas. Onde o cérebro não alcança a razão, o diálogo torna-se inútil.

A igreja traz ensinamentos. Alguns que não podemos esquecer jamais. Amar ao próximo como a ti mesmo foi o melhor que aprendi nos desconfortáveis bancos da capela de Vila Tibério, na voz rouca e solitária de dona Marcelina, minha primeira e única catequista. Bater no peito e chamar-se de cristão é o primeiro indício da vaidade humana e do desprezo aos seus semelhantes. Cristo morreu por nós, acreditava eu, em meus inocentes 8 ou 10 anos. Bolsonaro mata por ideologia, creio agora no alto das minhas setenta primaveras, que seriam melhores sem ele, com certeza.

Faço com lucidez e sem nenhum exagero uma lista com mais de 50 nomes de amigos e/ou familiares que perdi durante essa “gripezinha”, que o beócio presidente nos anunciou. Choro por todos. Choro por mim e pelos familiares queridos que não vejo – e, portanto, não abraço e nem beijo – há mais de 18 meses. Vivo em uma bolha isolada, sem rumo e pouco destino. Cuca é minha afilhada do coração, precisa e tem tratamento especial. Difícil fazê-la entender que um canalha nos isolou. Não me desculpem, mas é um momento de despedidas.

 
José Fernando Chiavenato, é jornalista e escritor. 
José Fernando Chiavenato
Jornalista das antigas, que tenta enxergar o Brasil sem miopia política ou catarata social. É um teimoso profissional, alguém que ainda acredita que dias melhores virão; mas sabe que o pior sempre vence a corrida da tragédia. “O ser humano precisa ser reinventado, essa geração não deu certo”, confissão que o autor jura ter ouvido de Deus.

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