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Crônica | Mãos ao alto, bebê!

Um menino de 6 anos foi suspenso de uma escola em Canon City, no Colorado, Estados Unidos, após beijar a mão de uma menina. O comportamento foi definido por inspetores da escola como assédio sexual – notícia do Portal G1, disponível aqui

 – Mãos ao alto, é a polícia, você está preso!

O pequeno Zualdo olhou para a porta, que acabara de ser arrombada. Achou engraçado, do alto dos seus quatro anos de idade, aquele homenzarrão vestido de azul que entrou na sala de sua casa chutando a porta. Mas não teve muito tempo para entender. Foi violentamente jogado ao chão. Aquele mesmo homem dobrava suas mãos para trás.

Ele tentava colocar alguma coisa de metal no seu braço, e, desajeitado, conseguiu. Pensou em chorar, mas, antes que pudesse terminar o pensamento, foi erguido, de sopetão. Enquanto ficava de pé, percebeu a mãe, chorando e berrando, pedindo que aqueles homens não levassem seu filho.

Achou engraçado, já que, geralmente, era ele quem chorava, e não sua mãe.

Foi levado da casa e colocado em um carro engraçado, que piscava luzes e fazia barulho. Os homens fortes iam na frente e ele ficou em um cercadinho que tinha grades de ferro e que ele, ao contrário dos de casa, que escalava, não conseguia superar de jeito nenhum.

Depois de alguns minutos, foi retirado do cercadinho por um dos homens fortes, que o levou de frente para um outro homem, que tinha um pedaço de pano que saia da camisa e tinha um bigode engraçado.

O homem falava com ele, mas ele não entendia direito.

– O senhor é um meliante e cometeu um delito muito grave. Terá que ser apartado da sociedade para o seu próprio bem.

Percebeu a mãe, chorando, que acabara de entrar. Correu para a direção dela e estendeu os braços mas, antes que pudesse pular no colo, viu um dos homens empurrá-la violentamente. Ela caiu.

– Tentativa de resgate de preso, emergência, todas as viaturas e policiais atendam à ocorrência. Agentes em perigo!, disse o homem forte, que tinha o pé colocado em cima do rosto de sua mãe e falava em uma caixinha estranha que parecia um telefone.

Depois disso, não lembra direito o que aconteceu. Quis correr para ver se a mãe estava bem, mas levou um choque que o fez cair. Não se lembra de mais nada. Quando acordou, estava no chão de um lugar escuro. Tentou levantar, e caiu no chão. Quando chorou, ouviu um grito pedindo que parasse de chorar.

*****

Passou ali muito tempo. Certo dia, foi levado na frente de um homem velho, que usava peruca e uma capa que parecia a do batman.

– Pode me contar o que você fez naquele dia, na escola?

Nem se lembrava que dia era aquele. Também não conseguia falar.

– Que fique claro que o acusado se manteve em silencio, disse o cara que tinha a capa do batman.

Logo depois, Maria, sua amiguinha da escola, entrou na sala. Ele era muito amigo dela. Os dois sempre lanchavam junto na escola. Outro dia, ela deu um beijo no rosto dele. Ele gostou.

Em casa, percebeu que a mamãe e o papai também se beijavam, mas não era no rosto. Achou aquilo muito bacana, e beijou a mamãe daquela maneira. Ela adorou! E ele também! Era tão gostoso ficar pertinho da mãe.

Na escola, depois que Maria deu a ele um belo pedaço de hot dog, resolveu fazer o mesmo. Deu um beijo diferente na colega, igual ao que dera em sua mãe. Mas ela não gostou muito. Disse a ele que só namorados faziam aquilo.

A tia da escola, revoltada, deu uma bronca nele. E achou aquilo tão grave que, depois, também ligou para os homens fortes. Como ele já tinha saído da escola, resolveram buscá-lo. Agora entendeu. Tinha feito algo muito grave.

Tudo isso aquele homem de peruca e capa do batman contou a ele. E, do alto de seus quatro anos, percebeu que precisava de um castigo muito grande. Disseram que o nome do que ele tinha feito era estupro. E que ele teria que ficar de castigo em uma sala muito tempo, sem poder brincar nem sair.

– Dicupa, Maria, teve tempo de dizer, antes de ser levado para a tal sala.

*****

Passou lá os 14 anos seguintes. Quando teve autorização de sair, encontrou uma moça muito bonita esperando por ele. Ela correu ao encontro dele e deu um abraço tão gostoso que ele fechou os olhos e ficou com a cabeça encostada no ombro dela por muito tempo.

Inesperadamente, a jovem, que ele não conhecia, sussurrou em seu ouvido. Ele não ouviu direito, mas inclinou o rosto. Olhou naqueles olhos e reconheceu Maria, a amiguinha da infância, que já era uma mulher. Tinha até aqueles dois montes no lugar do peito, igual à sua mãe.  

Antes que pudesse reagir, ouviu um pedido de desculpas. Não entendeu direito mas, sem que percebesse, a jovem tinha colado os lábios dela nos dele do mesmo jeito que ele havia feito quando ainda era uma criança. O coração bateu forte, o corpo tremeu.

Mas ele foi esperto. Antes que os homens fortes aparecessem de novo, ele saiu correndo. Correu, correu, correu até cair, exausto. E sonhar com o beijo que acabara de receber.

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Eduardo Schiavoni
Editor-chefe do Portal do Grupo Thathi