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A verdadeira ligação entre o rock’n roll e o demônio

Salve, habitantes do planeta terra e região! Vim em missão de paz trazer um novo olhar sobre um dos maiores mitos da história da música, a ligação entre o rock’n roll e o demônio. Apesar de alguns terem levado a sério demais, dentro e fora do rock, a verdade é que essa conexão surgiu fora do estilo e acabou abraçada por vários artistas como figura de linguagem.

Tudo começou na década de 1930 com o blueseiro Robert Johnson, que tem um peso enorme na história do rock. É considerado um dos pais do gênero mesmo sem jamais ter tocado um rock. Ele faleceu em 1938, aos 27 anos, inaugurando outra grande lenda da música, a ”maldição dos  27”  que teria vitimado, além dele, Jimi Hendrix, Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Whinehouse. De forma bastante resumida, no contexto da época, nos EUA, país com formação religiosa majoritariamente protestante, as igrejas “competiam” com os pubs onde rolava o blues. Logo, o estilo foi associado ao demônio pelos pastores e fiéis. Robert Jonhson enfrentava o preconceito da família e, numa viagem como músico, ao voltar, soube da morte da então esposa, que estava grávida.

A causa da morte, segundo a família, era o blues, a música do demônio que tirou Robert Johnson de casa enquanto a mulher falecia. Outra versão, ou detalhe, é que o amigo e também blueseiro Son House, que faleceu bem mais velho, em 1988, teria reforçado o mito do pacto com o demônio numa encruzilhada pela forma impressionante de Johnson de tocar o violão afinado um tom abaixo. Não se sabe se ele passou a crer nisso, mas o fato é que ele vestiu a carapuça e inseriu referências ao demônio em suas letras, talvez até lamentando a própria sina. Robert Johnson teve seu copo de uísque envenenado e faleceu dias depois.

Black Sabbath: A banda é tida como satanista e na verdade todos são cristãos e passaram a usar crucifixos com medo de “maldições”.

A história dele tem poucos registros, gravou cerca de 30 músicas apenas, mas é regravado até hoje e influenciou toda a geração do rock dos anos 60. O mito em si tem muito menos uma aura de mistério e é muito mais embalado em preconceito. A parte da encruzilhada, por exemplo, é carregada de julgamento religioso. Sabemos que a encruzilhada é um símbolo das religiões derivadas dos cultos dos negros, aqui no Brasil é usada por Umbanda e Candomblé, por exemplo, muito por significar o cruzamento dos caminhos, nada a ver com demônio.

Depois de Johnson, outros blueseiros vestiram a carapuça e o rock, filho de um triângulo amoroso entre blues, jazz e country herdou a pecha de música do mal. Alguns roqueiros têm  a imagem fortemente ligada a isso como Ozzy Osbourne e os cristãos do Black Sabbath. Tem até uma história de que alguém os teria alertado sobre uma praga que teria sido lançada contra a banda e todos, desde então, passaram a viver com crucifixos no pescoço para se proteger. As passagens tenebrosas em algumas letras não passam de ficção. Assim como as pessoas gastavam seu dinheiro para sentir medo em filmes de terror no cinema, os músicos da banda notaram que esse também poderia ser um nicho musical. Nicho esse que foi levado adiante por outros expoentes do rock, como o Iron Maiden. Não passa de literatura.

John Lennon é outro que até hoje é alvo de malhação religiosa por um contexto que envolveu a análise dele  sobre os jovens ingleses conhecerem mais sobre Beatles do que sobre Jesus Cristo. Tudo o que ele quis dizer era que a religião estava enfraquecendo, os jovens consumiam mais cultura pop, ele acreditava que a religião poderia acabar, mas nunca afirmou que os Beatles eram maiores que Jesus. Tem também a face de Aleister Crownley na capa do álbum Sgt. Peppers… Produzi um roteiro com mais detalhes sobre isso para um vídeo do Canal NB:

  Anos depois do fim da banda, Lennon teve um hiato como músico entre 1975 e 1980 para descansar e cuidar da família. Nesse período, afirmou em entrevistas que para ter sucesso teve que fazer um pacto com o demônio. Ele estava se referindo a viver anos sob contrato com produtores e empresários, trabalhando dia e noite com raríssimas folgas ao longo dos anos para manter os Beatles no topo da música mundial. Por isso cinco anos de folga e a afirmação que só contribuiu para reforçar essa imagem de anticristo associada a ele. Muitos religiosos consideram que a morte dele, assim como a morte de Robert Johnson e outros, foi um castigo de Deus, ou o diabo cobrando seu preço.

John Lennon, o Beatle pacifista, é tratado até hoje por alguns cristãos como alguém que desrespeitou a religião

O último e não menos importante que merece atenção aqui, para o contexto brasileiro, é pai do rock nacional, Raul Seixas. Talvez seja a história mais controversa. Raul, com o amigo Paulo Coelho, fez parte de uma associação que considera que existem dois tipos de seres no mundo espiritual, os bons e os ruins. Mas todos são demônios, não no sentido bíblico, mas sim pela etimologia da palavra. Daemon, origem grega de demônio, significa divindade, espírito, no geral. Então o pessoal da associação basicamente acreditava nisso e cultuava as divindades “do bem”. A figura do ocultista Aleister Crowley também influenciou a obra de Raul que é autor da música “O Rock do Diabo” na qual diz que o diabo é o pai do rock. Mas nessa letra ele não fala dos demônios do mal, ele diz: “existem dois diabos só que um parou na pista/um deles é o do toque o outro aquele do exorcista”.

O “toque”, para Raul Seixas, era a inspiração que deu origem ao rock e a muitos outros feitos bons da humanidade. Raul falava sobre uma influência espiritual criativa, positiva, mas com sua inseparável ironia, claro. Talvez a mesma que fez Robert Johnson “abraçar o demônio” em suas letras. Quando foi encontrado morto, Raul Seixas estava deitado na cama, com uma bíblia nos braços. Segundo seu irmão, que inspirou a música “Meu amigo Pedro”, Raul era muito cético e não acreditava em todas aquelas histórias de demônio. Caetano Veloso conta, no documentário “O Início, o fim e o meio”, sobre uma visita de Raulzito com Paulo Coelho, na qual o escritor conhecido, hoje, mundialmente tentava convencê-lo sobre a ideologia da associação que adorava os demônios enquanto Raul não parava de fazer piadas sobre a crença.

Esse é um pouco do contexto pelo qual se faz compreensível a presença do diabo no rock’n roll. Claro que existem outros detalhes como as histórias de magia do Led Zeppelin, mas podemos destacar em outras oportunidades. Importante ressaltar aqui que não há nenhum descrédito ao cristianismo, do qual sou adepto, mas sim contexto histórico, muito útil nos dias de hoje em que as fake news se propagam aos borbotões pela internet.

Há quem diga que não conhece muito The Beatles mas questiona essas referências, o mesmo se dá com Robert Johnson, ou até com os Rolling Stones por causa da música “Simpathy for the Devil” cuja letra é, basicamente, o diabo se apresentando pelas maldades que já fez no mundo, ou seja, literatura na música. Enfim, conhecereis a verdade e ela vos libertará, não é? Eis aí, amigos e amigas. Basta entrar numa igreja católica ou protestante que trabalha com música em seus cultos e duvido que passe uma missa sem um arranjo de rock. Rock’n roll é música, o resto é história.

 

João Pitombeira
Jornalista em atividade desde 2009 com passagens por BandNews FM, Bandeirantes Am, Rádio Globo Am, CMN/Jovem Pan, Folha de S. Paulo e G1, entre outros trabalhos. Atua também como produtor cultural e músico. Contato:joaopitombeira@gmail.com